Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

"De mãos é cada flor, cada cidade"

A meio da semana saberemos qual o verso de Manuel Alegre que ficará gravado numa parede da cidade de Penafiel, perpetuando a Escritaria que hoje começa. Será um verso enaltecendo aquilo a que o poeta chama "a música secreta da língua". Um sinal de que, na sua obra, o poema rimou, sempre, com a vida. "Sei que nenhum verso vence a morte", escreveu certa vez Alegre, num quase auto-retrato. A frase pretende vincar que, não havendo "outra eternidade senão a do momento que passa", cabe à poesia criar "uma relação mágica com o mundo".

Manuel Alegre vai passar uma semana noutra cidade. Penafiel será, com ele, o Livro do Português Errante. Todas as suas praças serão a Praça da Canção. E o seu olhar maravilhado será o do Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua. Pude ver, nessa cidade, o olhar encantado de Lídia Jorge, de Alice Vieira, de Mário Cláudio, de Pepetela. Não duvido de que, tal como eles, Alegre poderá repetir, quando lhe derem a provar bolinhos de amor, aquele verso da Canção Primeira, "Em cada poema estou / mas não sozinho". Por certo, alguém o levará à Casa do Seixo, onde o poeta António Nobre, cuja obra tanto aprecia, passava longas temporadas. Por certo, lhe hão-de mostrar a casa onde viveu Joaquim de Araújo, um dos grandes da cultura portuguesa nos finais do século XIX e inícios do século XX, fundador da revista "Harpa", onde Antero publicou sonetos.

Vem ao caso destacar, na programação da Escritaria ,a apresentação do novo livro de Alegre, um livro que reúne sonetos de há muito amanhados pelo agora homenageado. Escrevo "amanhados" para celebrar as mãos. As mãos do poeta, antes de mais, pois "de mãos se faz o poema e são de terra". Acresce que, entre as muitas iniciativas que vão marcar a semana (idas a várias escolas, participação na Bibliomóvel, uma biblioteca em movimento pelos bairros sociais do concelho, muitas tertúlias e o contacto tão estreito com os leitores) pretendo destacar aquela que envolve o trabalho dos moradores do Bairro Fonte da Cruz. Eles ergueram uma instalação intitulada "Uma casa feita de mãos", tomando como martelo e espátula os versos de Alegre: "Não são de pedra estas casas/mas de mãos".

Em Penafiel diremos com o poeta: "De mãos é cada flor, cada cidade".

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