Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Devagar, divagando

Com a primavera, os caracóis começaram a puxar a manhã desde o chão até ao cimo do pequeno muro encostado a um renque de margaridas. A subida parece ocorrer em formação, cada caracol mantendo do seguinte uma distância cautelar, todos confinados ao seu pedaço de chão vertical. Se isso não convocasse o olhar inquiridor da vizinhança, eu seria tentado a madrugar ainda mais, de modo a perceber em que preciso momento do escuro irrompe, no ovo do dia, a antena de olhos quase cegos antecipando a lenta lesma, toda tacto e olfacto. A noite é o seu planeta móvel. Se eu não temesse o olhar indagador da vizinhança, seria tentado a sentar-me no muro baixo, cume da aventura destes sísifos do próprio esqueleto, sua casa, sua carga. E ali ficaria, devagar divagando, anotando a demorada caminhada, o percurso e lugar de retorno, o sentido da viagem destes peregrinos. Que sombras procuram, que verdes prados, que país? Talvez o País-do-Dente-de-Leão, onde cresce o calicanto e onde Luis Sepúlveda descobriu, com eles, a importância da lentidão.

Fui reparando que um dos caracóis parece preferir a textura mais sombria, porventura mais húmida, do muro em que pratica o seu alpinismo zen. Trato de o fotografar nesse aconchego. E lembro-me da convicção de Manoel de Barros, meu poeta maior: "Nódoas de muro seduzem caracóis". Mas há-de tratar-se de uma sedução melancólica. Por alguma razão o poeta definiu caracol como "uma solidão que anda na parede".

Há um breve fim do mundo, uma incerta hibernação, na roda dos dias do caracol e na minha. Leio a sina de ambos na palma da mão do poema de Manoel de Barros: "Depois que atravessem o muro e a tarde / os caracóis cessarão / às vezes ao meio./ Cessam de repente, / porque lhes acaba por dentro / a gosma com que sagram os seus caminhos. / Vêm os meninos e os arrancam da parede / ocos".

Em vésperas de entrar em lay-off, invejo o caracol que consegue dormir até três anos. A contemplação não afasta dos meus pensamentos mais voluptuosos um certo perfume de orégãos. Que planos acalento para os dias mais opressivos? Soam, como campainhas discrepantes, as palavras adubadas pela ministra da agricultura, numa ida ao MARL, faz hoje um mês. Magnânima, a ministra mostrou mais do que rosas no regaço, aliciando para os campos os trabalhadores caídos em lay-off. Bondosa sugestão, a sua, estendendo diante da minha improdutividade os campos em pousio e a tentação da pastorícia. Como poderei manifestar gratidão a tão benévolo gesto? Farei como um certo engenheiro naval rasgando horizontes: "Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros". Nos dias restantes, não ficarei de mãos nos bolsos. Vou apanhar caracóis.

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