Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Diálogo entre um pai e um filho num navio para Bhashan Char

-Pai, por que nos levam nestes sete navios para Bhashan Char?

-Porque somos refugiados rohingya, meu filho. E as autoridades do Bangladesh que nos acolheram nos campos de Cox Bazar preferem confinar-nos na ilha para onde vamos, agora, na baía de Bengala.

-Mas essa ilha para onde nos levam tem melhores condições de vida do que os campos de refugiados sobrelotados?

-As autoridades dizem que sim, meu filho, mas os grupos de defesa dos direitos humanos temem que não e as Nações Unidas já manifestaram grande preocupação. A ilha nunca foi habitada e, durante as chuvas das monções, chega a ficar submersa. Quando eu nasci, esta ilha, formada com o lodo do Himalaia, ainda não se tinha formado.

-Pai, quantas ilhas há no mundo?

-Perto de dezoito mil. Mas há ilhas que desaparecem e outras que nascem da fúria dos vulcões.

-Pai, na ilha para onde vamos há um Minotauro?

-É provável, mas com outro nome, meu filho. Os Minotauros foram mudando de forma e de nome, ao longo dos tempos.

-Pai, serei o Teseu desta ilha?

-Teseu teve um triste fim, meu filho. Foi lançado de um penhasco.

-Pai, um dia, lá em Bhashan Char, para onde nos levam nestes sete navios, contas-me a história de Ulisses e de Penélope que o esperou em Ítaca?

-Talvez, meu filho, se encontrarmos alguma paz, entre enchentes e ciclones. E talvez te fale, também, da ilha do Diabo, ou de Alcatraz, ou de Asinara, a ilha dos burros albinos. Lá morreram cinco mil presos de outra guerra, meu filho.

-Pai, a ilha para onde estamos a ser levados, é uma prisão? Somos refugiados ou prisioneiros?

-Somos refugiados, prisioneiros de uma paz podre, de uma guerra surda. Um pouco como os que eram levados para Espinalonga.

-Que lugar é esse, pai?

-É uma ilha onde existiu a última colónia de leprosos da Europa. Nós somos de algum modo os leprosos da Ásia.

-Pai, ninguém nos vai perguntar que livros gostaríamos de levar para esta ilha deserta?

-Não é provável, meu filho.

-Pai, posso pedir um galeão voador, este Natal?

-Já não há galeões voadores, meu filho.

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