Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Dom Inocêncio de Arcena

Se um artesão faz uma gaita de foles com luvas de limpeza e sacos de vinho, e dessa engenhoca consegue extrair música, não valorizemos a ressalva de que é fraco músico com que o próprio atalha a conversa. Ele tem uma arte tão espantosa como a do flautista dos irmãos Grimm, mas não lhe peçam que hipnotize ratos, quanto mais crianças.

Dá o homem pelo nome de Inocêncio Casquinha e algumas das maravilhas que cria são contadas no jornal electrónico O Mirante. Lá em Arcena, onde vive, Inocêncio transforma o lixo dos vizinhos em instrumentos musicais e em marionetas. Tem 69 anos, transforma lixo em luxo e essa é uma arte que lhe vem da infância, quando fazia brinquedos com latas de conserva ou assobios com canas. Certa vez, construiu uma ocarina com restos de um estore. Uma tampa de tacho, nas mãos dele, há de servir para uma bateria. O Mirante recorda que, antes de se reformar, este antigo animador cultural chegou a tocar para Mário Soares, em visita que o então Presidente da República fez à região ribatejana. Leio a história do artesão de Arcena e a memória traz-me as tardes felizes da infância dedilhando a viola feita com uma lata de azeite. Nem sequer fraco músico fui, antes me ocupando de catar noutros lixos a possível pérola. Histórias como a de Inocêncio.

Ora se em alguma medida somos o nosso nome, procurai saber de Dom Inocêncio, nome de município no sertão do Piauí, a 600 km de Teresina.

Lá ergueram um monumento em forma de sanfona, o maior do mundo com tal aparato, celebrando o facto de um em cada trinta e cinco habitantes ser sanfoneiro. A paixão da sanfona foi dinamizada pela Associação Cultural Acordes do Campestre, que ensina gratuitamente mais de 200 crianças a tocarem o instrumento. O Inocêncio lá do Piauí é um tal Sandrinho do Acordeon. Lixo à parte, há entre este Sandrinho de Dom Inocêncio e Inocêncio Casquinha, o artesão de Arcena, um adereço comum: quando andava na animação cultural, quer no museu de Vila Franca de Xira, quer no de Cascais, o artesão ribatejano usava uma designada maleta pedagógica em forma de concertina. Os de Arcena, e nós todos, bem poderíamos chamar-lhe Dom Inocêncio.

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