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No sábado, depois de almoço, vi-me aflito para encontrar estacionamento na zona do Principe Real. Quando entrei no Anfiteatro de Botânica Prof Aurélio Quintanilha, no Museu Nacional de História Natural e de Ciência, o professor jubilado Fernando Catarino mostrava já, num enorme ecrã, a imagem da Silene Stenophylla, a planta resgatada a um tempo ancestral. O anfiteatro estava cheio. Estudantes e professores de botânica, biólogos de outras disciplinas, lisboetas atraídos pela agenda da biodiversidade, todos estavam presos à imagem formidável da planta agora "ressuscitada" dos gelos da Sibéria pelos investigadores da Academia das Ciências da Rússia. Uma pequena flor branca irrompera da semente que tinha permanecido congelada a 7 graus negativos durante 30 mil anos. E ali estava um dos mais notáveis botânicos portugueses comentando a cor e o tamanho das pétalas de uma bela flor adormecida com uma alegria juvenil, como se enlaçasse de apêndices férteis toda a possibilidade de histórias que há num jardim. O que ali estava a acontecer era a apresentação de um novo portal da Sociedade Portuguesa de Botânica, o "Flora-On". É um notável projecto que nos dá acesso a uma base de dados inter-activa da flora portuguesa. Lá irei com frequência. Mas no sábado o que me interessava era a "viagem pela botânica em Portugal" , prometida para a sessão de lançamento do portal, tendo como cicerone o grande botânico jubilado Fernando Catarino cujas aulas se tornaram míticas. Finalmente, tive a minha aula de Fernando Catarino, uma aula de risos e cumplicidades que nos levou aos mais inacessíveis trilhos das serras, por uma flor rara, ou nos reavivou a memória de grandes botânicos portugueses que deixaram a sua marca naquele mesmo anfiteatro. António Xavier Pereira Coutinho, por cujo Atlas estudaram "gerações e gerações, quando a botânica era mesmo dura de roer", deu aulas naquela mesma sala mas (lembra Fernando Catarino) "trabalhava ao fundo do corredor, no herbário, uma coisa escura, horrorosa". Fernando Catarino tira de um saco um livro de João Paulo Cabral e pergunta a alguém na sala se se lembra dele, autor de uma biografia sobre Gonçalo Sampaio, "um botânico de olho". E já conta a história de Ricardo Jorge, filho, que chegou a ser ministro da Instrução, convidado por engano, ao atender o telefonema que era dirigido a Ricardo Jorge, pai, o higienista. E fala de Ruy Telles Palhinha, a quem se deve a exploração sistemática da flora açoriana e que foi director do Jardim Botânico de Lisboa. O prof Catarino ainda o conheceu, conta que "morreu de morte macaca, atropelado por um táxi aqui em frente" (entenda-se, na rua da Escola Politécnica). E fala de Abílio Fernandes, muito parecido com o filho, o pintor Eduardo Batarda e "com aquela rapariga bonita, como é que ela se chama?" ("Beatriz!", respondem várias vozes na sala.). E recorda Joao Amaral Franco, "um homem de laboratório. No campo não era capaz de reconhecer uma planta, era preciso tê-las secas, catalogadas".
Como é que Amaral Franco reagiria á imagem da Silene Stenophylla, resgatada do gelo da Sibéria, 30 mil anos depois? Mas entretanto Fernando Catarino terminara a viagem, terminara a aula, e já Miguel Porto fazia a apresentação do portal. Puro engano: uma aula nunca termina, para nosso júbilo. E assim, a voz do professor Catarino irrompe do escuro: "Vê Saphirina". Pede a Miguel que procure no portal o nome Saphirina. "Saía muito nos exames, cheguei a fazer excursões para as ver, para os lados de Seia". E aqui estou a olhar esta palavra, assim grafada, com ph, como me soou mais plausível, grato por uma lição que me chamou para o jardim, para o "resumo de uma utopia", como lhe chamou Rubem Alves. O grande pedagogo considerava, aliás, o jardim, uma espécie de "programa para uma política". Para ele, a política seria "a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro". E, por isso, "todo o político deveria ser jardineiro". Espero poder um dia confrontar o grande botânico com esta ideia. Num estúdio de rádio. Que é um anfiteatro ainda maior.

Fernando Alves escreve no português anterior ao acordo ortográfico.

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