Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10
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Surdina

Uso a banda sonora construída por Tó Trips para o filme Surdina, de Rodrigo Areias, deste modo celebrando o prémio de interpretação com que o Festival de Cinema de Liverpool acaba de distinguir os actores Adelaide Teixeira e António Durães. O filme foi rodado no centro histórico de Guimarães e em São Cristovão do Selho, onde Valter Hugo Mãe, autor do argumento, tem família. É um filme sobre a passagem do tempo e a erosão que ela provoca num homem à mercê de outras intempéries, olhares malévolos, murmúrios envenenados. Isaque, o homem de barbas brancas, viúvo de uma mulher que terá sido vista deambulando pela feira, esconde-se das perguntas insidiosas, enquanto os dias se conjugam nas mesas de dominó das tabernas onde o vinho ainda é serviço em malgas. A dado momento, o grande actor António Durães passa, com a sua samarra, por uma rua estreita e sombria que me parece familiar. Isaque defende-se do frio e da perfídia cosido às paredes do que me parece ser a Viela da Arrouchela e, por instantes, ocorre-me que uma das mulheres que, à sua passagem, interrompem o mexerico avulso para pousarem sobre a sua amargura a pergunta capciosa, possa ser a dona Augusta da Adega dos Caquinhos. Anoto essa suspeita de familiaridade com o lugar, com os seus recantos, porque nos é necessário esse mapa na organização de um mais íntimo cemitério de elefantes. Pondero ruas e praças e tabernas para o meu próprio retiro futuro, procurando o banco de jardim em que hei-de sentar a minha própria velhice. Mas a mulher despeja agora sobre o vulto de Isaque uma sagacidade manhosa : "Bom dia, senhor Isaque. Foi à sua missa?". E o homem da samarra responde-lhe, do mais fundo da mágoa aprumada, tomando para si a voz grave de um dos grandes actores deste tempo: "Fui à missa de toda a gente".