Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

As leis da sede na dobra da Gardunha

Num lugar da Beira, de cujo nome não quero esquecer-me, esperei em vão nem sequer por fidalgo de lança em cabido ou adarga antiga, depois de exaustiva jornada no mapa saramaguiano. Fora o dia povoado de belas revelações, a arqueóloga Filomena abriu para mim, tudo como dantes, um castelo fechado a sete chaves e a vários alarmes e mostrou-me a pedra onde, ali mesmo junto à capelinha que as muralhas de Abrantes guardam, Nuno Álvares Pereira terá firmado o pé antes de se acomodar na sela de seu alazão e rumar a Aljubarrota. Outra arqueóloga, Sílvia, mostrara-me o Jardim do Paço que António Salvado cantou no final dos anos 60 e que José Manuel Castanheira ilustrou numa bela edição posta a circular pela Caleidoscópio em finais de 2020. "Que algumas palavras fiquem /presas na garganta", pede o poeta da cidade de João Ruiz ("Senhora, partem tão tristes.."). Saramago cedo percebe que, em Castelo Branco, todos os caminhos vão dar ao Jardim do Paço. Do mesmo modo, uma fita de asfalto corta ao meio o estranho povoado onde o repórter sempre pontualíssimo esperou em vão tempo bastante para rosnar vernáculo e se fazer ao caminho. Para que serve esta estrada que corta ao meio um certo lugar da Beira de cujo nome não quero esquecer-me? Saramago percebeu que não tem tal estrada, a N18, outra serventia que não seja a de erguer muros, talvez para acentuar o carácter mais secreto do que escondido do lugar onde nasceu um cardeal de cujos ossos Roma se não desfez.