Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Farmácia da Poesia

O poeta, dramaturgo e antigo jornalista João Carlos Abreu, durante mais de 20 anos secretário regional do Turismo e da Cultura da Madeira, acaba de anunciar, em entrevista a uma rádio do Funchal, a intenção de criar uma "Farmácia da Poesia" na ilha. Nessa farmácia seriam atendidas e medicadas, com poemas, pessoas apanhadas pelo stress ou pela ansiedade.

João Carlos Abreu é um fazedor, um homem de visão larga. Teve um papel importante na reabilitação da zona velha do Funchal e o seu nome é indissociável da criação do Centro de Estudos da História do Atlântico, bem como da realização do Festival do Atlântico ou do Carnaval do Funchal cuja grandiosidade não desprezou a tradicional Festa dos Compadres de Santana ou o velho Cortejo Trapalhão da rua da Carreira.

Ao anunciar a "Farmácia da Poesia", ele não reclama os louros de uma ideia que nasceu no Reino Unido quando a poeta Deborah Alma decidiu comprar uma ambulância e viajar nela por todo o país distribuindo versos a pessoas afectadas por doenças do foro emocional. Há tempos, ela disse à Sky News que prescreve poemas aos que a consultam, procurando sempre o poema certo para cada um dos pacientes.

João Carlos Abreu pretende levar por diante, na sua ilha, esta ideia feliz da poeta inglesa, rodeando-se de colaboradores nas áreas da sociologia, psicologia ou saúde mental. Quando encontrar o local apropriado dará largas ao desejo de incutir nos pacientes, através de poemas, o interesse pela vida e pelas pequenas coisas que tornam mais luminosos os nossos dias. Um gesto de tal audácia pede pacientes de igual afoiteza poética. Alguém que, convidado a sentar-se e a explicar o que sente, possa responder com aqueles versos de "O Mundo Clamoroso" de Manuel Resende, o engenheiro que preferiu erguer sólidas construções poéticas em grego moderno e se nos foi há dias: "Também o que é eterno morre um dia. / Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;/ O doutor quer por força a ecografia,/ Mas eu não estou para tantas precisões./Eu rio à morte com um riso largo:/ Morrer é tão banal, tão tem que ser!/ Disto ou daquilo, que me importa a mim?/ Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!/ A tanta exactidão mata o mistério./ O pH, o índice quarenta.../ Não quero as pulsações, os eritrócitos,/O temeroso alzeimer, ou o cancro,/ Nem sequer o tão raro, do coração,/ Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,/ a palpitar a cores no computador?/ Eu morro, eu morro, não se preocupem,/Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,/ Ou doutra coisa".

Pacientes difíceis? E daí? Este é um clínico de vasta experiência. Nenhuma moléstia da condição humana lhe é estranha. Está pronto para que lhe entre na farmácia alguém com as queixas de outro engenheiro dado aos versos: "Tenho uma grande constipação/ e toda a gente sabe como as grandes constipações / alteram todo o sistema do universo,/ Zangam-nos contra a vida,/ E fazem espirrar até à metafísica". Imagino o doutor Abreu a interromper o paciente, antecipando o verso final do poema de Álvaro de Campos. "Do que você precisa, meu caro, é de verdade e aspirina".

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