Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Flecha

Este livro pede que o visitemos à sombra do caramanchão ou sob a aragem do alpendre. "Flecha", de Matilde Campilho, é um livro de histórias curtas, espantos, alumbramentos. Algumas destas histórias cabem num verso, outras espreguiçam-se por meia página, umas quantas, poucas, trazem chapéu de aba larga, aquela que conta a história do melhor trapezista do circo voa sobre os homens e os leões para a pirueta final na página seguinte. São histórias que podem pedir um suspiro fundo ou um silêncio iniciático. O olhar, demorando-se na frase, faz-se palavra e flecha. Ambas pertencem ao vento. Apontamentos, instantes que perduram e se organizam como fio de Ariadne de uma deriva mansa pelos dias. Não há aqui uma urgência que não peça flechas lentas. É a urgência da demora.

Onde e quando reteve a autora estas imagens, estes instantes transformados em memória? Em que viagem, folheando que mapas antigos, debruçada a que parapeito, perdida em que caminho do bosque?

Eis os estranhos instantes que ela retém, vagueando. O siroco lambendo a copa de um pinheiro-manso. O apicultor observando o comportamento das abelhas. Um rapaz de calções subindo a montanha de Ararat. Uma girafa espreitando por cima de sete copas de acácia. Uma arariranha do Amazonas mastigando devagar uma piranha.

A páginas 144, um som de rádio irrompe neste livro que há-de ir comigo pelo verão dentro. Permiti que leia: "Um guardador de gado natural do lugar de Pomarinho, durante a pausa do almoço, senta-se na erva. Tira do bolso um aparelho a pilhas, liga-o, e coloca-o a seu lado no chão. Encosta o casaco à perafita. Depois de abrir o farnel e dar a primeira colherada na açorda de poejos, telefona para a rádio local e pede uma canção sertaneja. Acontece então, em onda média, um temporal de amor na planície alentejana".

A autora, entrevistada ontem por Luís Ricardo Duarte, da revista Visão, reflecte sobre a importância da lentidão e reafirma o propósito de uma aproximação ao "mistério do tempo". Não para o entender, "o que se afigura impossível". Mas para o habitar.

Assim a flecha se confunde com a duração do que o olhar sobrevoa, ou a frase, entre o disparo e o alvo. Matilde Campilho explica na entrevista à Visão: "A minha ligação com a flecha nunca foi o ponto de onde é disparada ou onde vai acertar. Apenas o seu movimento contínuo".

É a flecha do desejo para a outra margem a que se refere Nietzche, em "Assim falava Zaratustra".

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