Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Funçanatas e derriços

Já há muito tempo não passava em Bencatel. Lá está à entrada o monumento ao trabalhador do mármore. À hora a que passei, depois de um almoço tardio no Simão, em Borba, as ruas estavam quase desertas. Vi uma antiga moça de Bencatel caiando o rodapé da casa. O mesmo uns quilómetros adiante, na rua das Oliveirinhas, no Redondo. Gente caiando, ao pino do sol. Sinto o perfume do Alentejo a perder de vista, do Alentejo de que julgara perder-me. Já o pressinto, para lá do fino recorte da serra de Ossa, sobre a qual escreveu Hernâni Cidade, que era daqui e daqui abalou a bater-se bravamente na Flandres, durante a Grande Guerra. Feito prisioneiro, haveria de proferir para os restantes oficiais detidos uma conferência sobre "Camões, poeta europeu".

No Redondo me hei de pôr à conversa com Prudêncio Jeremias, filho e neto de oleiro, sobre uma arte que vai perdendo artífices.

-O Vitorino tem aparecido por aí? pergunto. -Ainda cá traz muita gente, responde o artesão. Lembro-me de noites que pareciam não ter fim, neste Redondo de tabernas que não sei reencontrar. E na Cuba, em Vila Alva, em Vila de Frades. Com Manuel da Fonseca, Mário Murcho, Janita e Vitorino. E esse fio da memória, no reencontro com o Alentejo das minhas noites sem fim, começa na estrada que atravessa Bencatel. O vento traz-me os versos do Conde de Monsaraz que Vitorino cantou: "Ó moças de Bencatel /não vos zangueis se vos ralho/ Muito amor, pouco trabalho, / pouco trigo, muito mel".

Quando veio a República, este Macedo Papança a quem D. Carlos fez conde escolheu voluntariamente o exílio, deixando para trás uma corte de artistas alentejanos em Lisboa e o charme parnasiano espalhado nos salões ou na planura. Foi nos seus versos cantados por Vitorino que encontrei as belas palavras "funçanatas" e "derriços". Por mais severos que sejam os avisos do conde de que por causa de "Funçanatas e derriços. / Cantigas e pasmaceiras" (...) "estão desertas as eiras / ó moças de Bencatel". A verdade é que à saída do povoado, já nas voltas da aldeia das Freiras, vi uma cegonha vigiando um vasto campo de milho. As moças de Bencatel, já com cabelos de prata, vão caiando ao pino do sol. O pensamento voa-me, entretanto, para lá da serra de Ossa.

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