Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Gramática comportamental

A Amazónia está outra vez a arder nas primeiras páginas.

A BBC Brasil anuncia a abertura da "temporada de queimadas sem plano". "O Brasil", alerta a BBC, "caminha para entrar na época de maior desmatamento e queimadas na Amazónia sem um plano para conter a degradação da floresta". 2020 será pior do que o ano anterior. Contas feitas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais confirmam que em Maio a floresta abatida correspondeu ao tamanho da área urbana de Brasília, o maior número dos últimos cinco anos. Em Junho, houve mais de 2200 focos de incêndio na Amazónia, uma escala que não era atingida desde 2007. A BBC refere-se ao plano do governo federal para combater a destruição da floresta. O plano, cuja responsabilidade vai caber ao vice-presidente Hamilton Mourão, deveria ter sido conhecido em Junho. Até agora, nicles. Um deputado que coordena a Frente Parlamentar Ambientalista do Congresso esteve há dias com Mourão. O vice-presidente está preocupado, disse ele, mas não se comprometeu com datas. Vários fundos de investimento querem discutir com o governo brasileiro o quadro de devastação da floresta que se anuncia e o maior produtor de salmão do mundo, com sede na Noruega, ameaça interromper a compra de soja brasileira se o Brasil não reduzir o desmatamento na Amazónia. Um climatologista ouvido pela BBC garante que a acção do Exército tem sido ineficaz. Milhares de soldados foram enviados para o terreno em Maio. Mas, por alguma razão, eles não foram além da monitorização do desastre.

Esta manhã, depois de ter sobrevoado a mancha do desastre da Amazónia nas capas de jornais de todo o mundo, demorei-me um instante no sorriso astucioso com que o filósofo alemão Peter Sloterdijk surge na edição digital da Deutsche Welle. O sorriso do autor de Crítica da Razão Cínica, o sorriso que escapa dos olhos semi-cerrados, dirigindo-se ao interlocutor por cima das lunetas, faz pensar em astúcia porque é da ordem da sagacidade, não da matreirice. Não é um sorriso manhoso, é um sorriso de quem já viu muito e pensou muito sobre o que viu. Ora, justamente, Sloterdijk dissera, há coisa de um ano, numa entrevista, que "a vida actual não convida a pensar". Desta vez, ele admite que, face às mudanças climáticas, "a humanidade está a aprender uma nova gramática comportamental" e que isso começa a ser detectável na reacção global ao coronavírus. Mas o principal aviso do grande filósofo alemão é o de que "os humanos não estão preparados para proteger a natureza". Porquê? Ele responde: "Porque em toda a nossa história como espécie, a nossa convicção mais profunda foi sempre a de que somos nós que devemos ser protegidos pelos poderes da natureza. E não estamos realmente preparados para essa inversão. Assim como um bebé não pode carregar a sua própria mãe, os seres humanos não estão preparados - ou não são capazes - de carregar a natureza. Eles têm de aprender a lidar com essa imensidão. Isso é um grande desafio porque não há mais a desculpa clássica de que somos muito pequenos para lidar com essas imensidades".

Será isso que explica a ineficácia dos milhares de soldados enviados em Maio para a Amazónia. E talvez explique o atraso na revelação do plano do vice-presidente Mourão. Muitas linhas de comando, muitos centros de decisão, não adoptaram ainda a nova gramática comportamental de que fala Sloterdijk. Ou talvez estejam já trabalhando no seu avesso, fazendo da gramática o que Ambrose Bierce dizia que ela era: "um sistema de armadilhas". Sloterdijk fala em "estruturas ocultas". Elas regem o que fazemos, tal como aquilo que dizemos é regido pela gramática e pelo léxico. O grande Paulo Leminski, num texto delirante sobre o professor de análise sintáctica, estabeleceu que "o assassino está na gramática". Nem isso assusta os bolsonaros. Eles não atinam, nem na gramática, nem no comportamento.

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