Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Ícaro sobrevoando o rio Nano

O jornal El Pais conta o caso do migrante que entrou em Espanha sobrevoando, num parapente, a fronteira com Marrocos, em Melilla. A Guardia Civil, alertada por automobilistas que circulavam numa estrada junto ao rio Nano, não teria encontrado o homem, cuja nacionalidade é ainda desconhecida. Os jornais locais sublinham que esta é a primeira entrada de um migrante usando um parapente. Eram seis e meia da tarde, os vinte e cinco segundos das imagens captadas por um dos automobilistas mostram que o parapente branco cruzou a fronteira rente às copas das árvores. Desta vez, Ícaro preferiu a hora crepuscular, dispensando-se de tocar o sol. Mas, como ensina o poema de Adélia Prado, "o voo aborta sempre./ Ainda que em chão de lua,/ todo o destino é o chão".

A notícia tem parágrafos breves e curtos, é pouco maior que o poema e de menor alcance. Assim sendo, sigo o poema, tentando adivinhar a sorte do parapentista clandestino que os jornais locais e as notas da Guardia Civil ainda não revelam. Imagino-o, tecendo o seu próprio labirinto, caminhando "sobre o planeta,/ como os equilibristas em suas bolas gigantes". Adélia Prado nunca terá andado de parapente, mas viu de perto o olhar de Ícaro, tocou as suas asas. Entretanto, o poema dela avisa que "não se sai do lugar, / de si mesmo não se pode sair".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de