Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Jordi Savall na esplanada da Courense

É uma mulher antiga, com um andar pressuroso, de pequenos passos ágeis.

Por vezes, ao fim da manhã, aguardo a hora de almoço na esplanada da Courense, ela passa, tomada por uma espécie de ritmo impaciente, trocamos uma observação breve sobre a cor do dia. Leva na mão os mesmos jornais que eu teria trazido do quiosque. Quando coincide na refeição, é dos raros comensais que ocupa o tempo de espera com a leitura de um livro. Não sei como se chama, talvez saiba o meu nome, de conversas cruzadas ao balcão.

Este sábado parou diante da minha mesa e, sem mais, sorriso rasgado, os braços abertos como se regesse no vento a Sinfonia n.º 6 em Fá maior, partilhou a boa nova: "Sabe que consegui bilhete para o Jordi Savall?"

Estava esfuziante. Tinha tentado um lugar para o concerto do catalão, amanhã à noite no Grande Auditório da Gulbenkian mas os constrangimentos da lotação da sala barraram, num primeiro momento, a sua euforia. Entretanto acabara de receber um telefonema a anunciar que, na definitiva arrumação, havia lugar para ela. Sorria como se participasse, allegro-presto, numa "feliz reunião de camponeses". E eu, allegro ma non tropo, a rua subitamente tomada pelos acordes da Sinfonia n.º 6, sob a invisível batuta do catalão que procura a execução mais próxima aos dias vienenses de Beethoven, sinto o "despertar de aprazíveis sentimentos ao chegar ao campo". O senhor Manuel vem à porta sondar as nuvens. Tudo está em seu lugar. O canto dos pastores traduz "sentimentos de alegria e gratidão depois da tempestade".

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