Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Jornais antigos, esconderijos do tempo

O tempo não se mede a metro. E, como dizia, um tal Caeiro, "não quero incluir o tempo no meu esquema"

No livro "Esconderijos do tempo", de Mário Quintana, há um poema intitulado "Seiscentos e sessenta e seis", sibilando a passagem do tempo, nem sequer perdido, apenas passado. "A vida", sugere Quintana, "é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa./ Quando se vê, já são seis horas: há tempo.../Quando se vê, já é 6ª feira.../Quando se vê, passaram 60 anos!"

Estava a catar tempo, sem o medir, e encontrei a carta de um leitor publicada, digamos, há algum tempo, no já desaparecido Diário de Lisboa. Tomemos que as coisas são atemporais, como propunha o tal Caeiro que não queria o presente mas a realidade. "Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede", dizia ele.

A carta do leitor, pois, encurtando parágrafos: "Li no seu jornal que, dentro de poucos meses, haverá concurso para levar o Metro a Alcântara. Mais: 'o projecto de uma nova linha encontra-se concluído. Foi analisado esta manhã pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa'. Sendo o vosso jornal um paladino e entusiasta pelo progresso da cidade de Lisboa e do bem estar dos seus utentes, venho alvitrar uma sugestão que muito contribuiria para o seu embelezamento. Por que razão não se estuda até ao limite da cidade - Algés - a nova linha do Metro?". O leitor discorre nos parágrafos seguintes sobre a bondade de tal estudo e da sua execução que permitiria transformar a zona ribeirinha, libertando-a de passagens de nível desnecessárias, pela eliminação do comboio a partir de Algés.

Já estou como o Caeiro: "Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede". De bom grado trocaria, como ele sugere, tantas vezes, o presente pela realidade. E o tempo não se mede a metro, estação a estação.

Deixai que vos diga, apenas: a carta do leitor do Diário de Lisboa de que vos li o parágrafo relevante foi publicada na edição de 15 de Janeiro de 1971, há precisamente 50 anos.

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