Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Lixo marinho na ciclovia

Sentados no paredão diante do telejornal, vamos à bolina de naufrágios em mares de plástico. Há dias, um cientista explicava que, em vastas zonas do globo, "há mais plástico do que vida no oceano". Tudo vai dar ao mar e parte considerável desse tudo é o tanto do nosso desinteresse, da nossa negligência. Ao contrário do que sugeria a canção de Caymmi, não é doce morrer no mar. Quando o saveiro regressa vazio, já não é seguro que o marinheiro tenha ido fazer "sua cama de noivo" no colo de Iemanjá.

Reparai nesta notícia contida na breve fímbria de uma linha de lixo que o mar devolve: a câmara da Moita andou ontem a recolher o lixo marinho da ciclovia entre a Moita e o Rosário. Há alguma coisa estranha na notícia?

Passo a ler o que encontrei, esta manhã, entre a maré de mails, inusitado sargaço plantado no ecrã pelos serviços da autarquia:

"A Câmara Municipal da Moita procedeu hoje à recolha de uma grande quantidade de lixo marinho que, nos últimos dias, devido à ocorrência de marés vivas, ficou depositado na zona de sapal e no percurso da ciclovia ribeirinha Moita-Rosário. Entre os detritos recolhidos, predominam os objetos de plástico, nomeadamente as garrafas, garrafões e caixas de esferovite, confirmando a informação da Associação Portuguesa de Lixo Marinho, segundo a qual mais de 90 por cento do lixo encontrado nas costas portuguesas é de plástico. Particularmente nocivo para o meio marinho, o plástico degrada-se lentamente, transformando-se em microplástico, pequenas partículas que são absorvidas pelos seres vivos e entram em todas as cadeias alimentares, chegando à nossa mesa.

Por outro lado, o fenómeno observado nos últimos dias à beira-Tejo recorda-nos, mais uma vez, que os sistemas naturais não conhecem fronteiras e são interdependentes, sendo o lixo marinho um dos problemas globais mais graves dos oceanos, rios e estuários do nosso planeta.".

Presumias que isto só acontece no país distante, um pouco irreal, da TV, para desassossegar os teus fins de tarde no paredão mediático?

Isto acontece já na tua ciclovia, atapetada de lixo marinho. Iemanjá avisa que se cansou de dar o colo aos marinheiros bonitos que se perdem melancolicamente dos seus saveiros. Já não é doce morrer no mar.

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