Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Morna, estrela linda

Eugénio suspende a notícia, ou o verso acalentado, ou o fio de uma novela a vir, ou o sopro de um sol, um dó de alma sustenido na pauta, e sobe de novo ao miradouro da Cruz Grande na Brava, cuidando adivinhar, em vão, as linhas do iate que, na alta noite, zarpara da baía da Furna.

Os olhos de Eugénio não procuram o vulcão do Fogo mas a silhueta de Kat que faz crescer labaredas no seu peito. "Que mal te fiz, oh mar?", pergunta à túrbida vaga a voz morna do poeta triste.

Noutra ilha, pai Justino está compassando, nas cordas de um cavaquinho, os passos da filha que há-de partir, à conquista do amor di mundo. Manda beijo de longe, manda mantenha. Vai a lua, vagabunda.

Francisco Xavier da Cruz há-de publicar versos na Claridade enquanto apruma o meio-tom brasileiro. B. Leza, exclamarão os circunstantes. Ele já pressente Miss Perfumado. A fama será maior que a ilha, hão-de vir-lhe à mão pedindo mornas. Lenda ou não, ele poderia bater com a mão no peito (se a não tivesse afagando o violão) e jurar Lua Nha Testemunha. Mas diz-se que a almofada da sua canção triste é já a do hospital onde, nha desventura, lhe vão conferir o óbito.

Manuel de Novas pode ser que venha à janela de sua casa em Monte Sossego. Ildo Lobo nasce outra vez em Pedra de Lume para dar notícia de Djonsinho Cabral. Cize vai cantar descalça na praça principal, acompanhada pelo irmão Lela, ao saxofone. Paulino Vieira vai tocar na harmónica a "Rotcha Escribida". Depois há-de ir à Casinha dos Licores ver tocar o Bau. Ou talvez volte a ser menino na Praia Branca de São Nicolau onde quem dera pudessem abraçar-se Armando Zeferino Soares, Amândio Cabral e Luís Morais instaurando a concórdia num caminho longe que não o da lonjura amarga. O senhor embaixador Aristides Paris aclara a mais doce voz rouca para Joana Rosa. Bana pousa o cotovelo no piano de Chico Serra. Tito está contente. Pergunta a cada um na roda, pergunta a cada um de nós: "Um gostá di bô?". Sim, respondem, respondemos. Os olhos dele ficam molhados como o mar di ilheu. Mim ê bô, canta ele. É a própria ideia de morna na primeira pessoa colectiva, imaterial património nosso, de nós todos.

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