Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Murcho só de nome

Foi com ele que, pela primeira vez, pisei o chão do Alentejo. Já lá vão quase quarenta e cinco anos, eu era um jovem repórter da RDP, com a minha Nagra de fita. Ele ia comigo, a mostrar-me a sua "pátria alentejana", as tabernas e outras capelinhas, os largos que ainda são "o centro do mundo". Nesse tempo, ele era um sósia de Karl Marx, com muletas. As muletas eram as suas andas de sobrevivente, com elas atravessou noites de glória que começavam nos jantares da Trave ou do Primeiro de Maio, no Bairro Alto, e terminavam onde calhava. Certa vez, madrugada alta num bar mal-afamado, um rufia a cair de bêbado apontou uma pistola aos circunstantes. Ficámos paralisados. Foi ele, Mário Murcho, alentejano de Alcáçovas, quem desarmou o desordeiro com um golpe fulminante de muleta.

Alcáçovas foi o destino dessa primeira incursão em trabalho pelo Alentejo. Ele levou-me a um mestre da arte chocalheira, seu primo. A oficina era um mundo admirável, um museu privado onde havia chocalhos pequeninos de trazer ao pescoço e outros dentro dos quais um homem podia esconder-se. Fui gravando com o mestre chocalheiro enquanto o Murcho dava leves pancadas com a bengala nos idiofones, cuidando do alindamento sonoro da conversa. Quando terminou a gravação, pedi ao entrevistado dois ou três dados para a ficha da reportagem. "Como é o seu nome?". E o homem: "João Penetra Murcho". Foi a primeira revelação de uma galeria de apelidos que teceram a teia de uma comunidade: os Penetra, os Caneca, os Vidazinha, os Matado, os Murcho. Há nomes que são, eles também, património imaterial da Humanidade. São nomes feitos para a conversa e para as histórias. Quatro décadas passadas, quando os de Alcáçovas tiveram um formidável pretexto para beberem champanhe por chocalhos, um dos responsáveis pela oficina Chocalhos Pardalito, não se conteve, ao telefone com um jornalista: "Nunca pensei que um dia o GPS do gado tivesse projecção mundial". Podia ser uma frase do meu velho camarada Mário Murcho que agora se foi.

Nunca escreveu uma notícia, mas tinha mais sentido do mundo do que muitos que exibiam carteira. Foi derrotando a doença e os gabinetes jurídicos de uma rádio bafienta e espalhando no ar a sua gargalhada copiosa e magnânima. Quando não nos aventurávamos demoradamente pelo seu Alentejo, ele pontificava na agenda da Rádio. Ligavam dos ministérios a dar nota da programação ministerial. "Com quem falei?", perguntavam, terminada a conversa. E ele: "Com o Murcho". Uma breve pausa e um rodapé: "Murcho só de nome".

Tinha tiradas desconcertantes. Quando traziam para a mesa o que a sede e a fome reclamavam, podia acontecer que ele dissesse: "Só tenho medo que isto me faça bem". Ou se lhe perguntavam as horas: "São três e meia, aqui e em toda a parte, menos em Beja".

Certa vez, madrugada alta em Vila Alva, Manuel da Fonseca comentou, para o meu gravador, o timbre das vozes das mulheres que cantavam enquanto preparavam migas para a mesa larga. Ele estava ao lado do Manuel e guardarei para sempre essa imagem de uma fraternidade em cante. Tal como outras, à mesa da Cavalariça, nas Entradas, com o Fernando Caeiros, o Carlos Júlio e outros amigos de Castro Verde. Ou outras, na Trave, com o Luis Pignatelli, o Vitorino, o Janita, a Lia Gama.

"Está-se aqui melhor que na prisão", dizia ele a propósito de nada. As tiradas dele vão permanecer à mesa onde envelhecemos, sacudindo a morte para mais tarde. As grandes tiradas do Mário Murcho. Murcho só de nome.

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