Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Na eira de Lusinde

Na paisagem em redor há capelas e alminhas, moinhos tradicionais, pontes e vias romanas, antas, salamandras espreguiçando-se nos penedos, pomares com as mais perfumadas maçãs.

Lá em Lusinde, no concelho de Penalva do Castelo, restam 200 habitantes, confinados pela erosão dos dias e pela fadiga dos ossos. O vírus que os mantém confinados está identificado: desertificação e envelhecimento, maleitas da morte lenta.

Há ali perto, nos prospectos que divulgam trilhos pedestres um designado Trajecto dos Condenados à Morte. Pode o visitante, seguindo esse trilho, encontrar os lugares de um antigo esconjuro de pedra e forca. Mas esse é um caldo de vida, é um legado, uma história que o chão guardou, uma memória no mapa. O mapa, se o abrirmos na pedra do lavadouro de Lusinde, revela-nos o nome dos povoados mais próximos. Um deles chama-se Arvoredo. Outro, Lusindinho.

Carlos Rodrigues nasceu em Lusinde e fez-se ao mundo. Entretanto regressou e começou a sentir-se inquieto enquanto assistia ao desaparecimento de antigas dinâmicas do lugar. Este fim de semana disse à agência Lusa: "As pessoas estão mais velhas e isolam-se mais em casa". Foi isso que o fez dar vento à ideia de uma associação que fosse capaz de trazer os mais velhos às ruas, "pelo menos quando está tempo bom".

Criou a Eira, uma Associação Multidisciplinar que se propõe promover sessões de música, cinema ou teatro mas, também, acções com que as pessoas de Lusinde se identifiquem, ligadas às tradições do lugar.

Eira é um nome apropriado. Carlos Rodrigues lembra-se das malhadas e das descamisadas, da celebração do milho-rei, dos risos, dos encontros nesse lugar de pão e fraternidade.

Num outro povoado, umas penedias mais a norte, lembro-me de alguém certa vez falar do tanto que Aquilino malhou, usando uma fórmula inesquecível: "Em Aquilino, cada livro era uma eira". E esse interlocutor de um serão em Castro Daire lembrava certa vez em que, tendo escapado da prisão do Fontelo, o escritor procurou refúgio algures na serra da Nave, perto da sua Soutosa. Em "Um Escritor Confessa-se", Aquilino conta que ia dormir a uma eira no povo de Ariz.

Que os de Lusinde nos chamem para esse lugar central de um povoado antigo onde se malhava o milho e se cantava e se atirava cântaros de barro no Carnaval é um sinal de que não estão dispostos a deixar as memórias e a vida quotidiana, mesmo confinadas, sem eira bem beira.

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