Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Na Judiaria, em Castelo de Vide

Já subimos e descemos, tantas vezes, estas ruas da judiaria de Castelo de Vide, tantas histórias escutei, nas últimas décadas, a este formidável anfitrião, que o foi também de Saramago, mais do que uma vez. Mas sempre me surpreendo com a profunda imersão deste homem nas memórias mais agregadoras de uma ideia de comunidade, nesta sua Castelo de Vide que, como poucos, soube pôr no mapa. Às vezes fico a imaginar o que teria sido uma conversa dele, Carolino Tapadejo, com Garcia de Orta.

Vamos com cuidado, Carolino, já não somos os prodigiosos rapazes das noitadas no Mil Homens, estes nossos ossos já pedem uma incursão nocturna à Fonte dos Cães, mesmo sabendo que a poção milagrosa foi invenção tua, que ainda ontem me apresentaste a três pessoas como sendo o padre João Matias e eu sem saber de missas a metade.

E lá fomos, depois de uma visita à Casa da Cidadania, onde a memória de Salgueiro Maia perdurará mais do que as manigâncias de alguns sacanas que o teriam encostado à parede, em podendo, embora lhe cantem loas nas datas do costume.

E depois descemos, sempre subindo porque, nessa correnteza das cinco ruas, abertas como cinco dedos de uma mão, a todo o tempo se alevanta em nós algo que é mais alto e mais nobre. Os olhos do meu amigo ficam brilhantes quando dá notícia do não tarda inaugurado centro de interpretação da Inquisição.

O que lá vem até faz sede nesta correnteza da rua Nova, tantas marcas na pedra dos portais destas casas, o que conta essa inscrição? E Carolino lê, tacteia a pedra, chama para ela a luz do sol, enquanto descemos até à Fonte da Vila e bebemos a água que jorra destas bicas, ajeitando os ossos, as mãos em concha. Carolino fala da passagem de um saber antigo, pela voz das mulheres. Saciada a sede nesta fonte onde Saramago bebeu e lamentou um abandono que, entretanto, foi superado, Carolino faz um gesto largo que abarca as seis colunas de mármore da fonte da vila e aponta a flor no mármore desenhada. As mulheres mais antigas, diz ele, regavam a flor, deitando água na ranhura da própria pedra. Eu já tinha desligado o gravador. Fiquei na dúvida sobre se estava em curso mais uma das partidas do meu amigo. Logo a seguir tive um pretexto para ligar, de novo, o gravador. Com ele, nenhuma rodada é a abaladiça.

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