Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
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Na verdade é simples, cacete

A imagem, captada pelo fotojornalista Sebastien Bozon, da agência France Presse, tem uns bons quinze dias, mas continua a interpelar-nos. Ela mostra um homem defendendo o seu pão, em Besançon. E defendendo o nosso pão, onde quer que estejamos.

O padeiro Stéphane olha-nos nos olhos, os braços cruzados sobre a grande caixa de baguetes saídas do forno. O seu olhar procura o nosso para nos dizer que a coragem é a levedura que nos torna melhores, mais merecedores do pão de cada dia. Na verdade é simples, cacete. Ele diz ao repórter de L'Express: "Um dia, acordamos e vamos à luta".

Que luta travou, afinal, o padeiro de Besançon? Apesar da saúde frágil e das três embolias pulmonares que constam da sua ficha clínica, entrou em greve de fome contra a ameaça de expulsão de Laye Traoré, um jovem guineense que ele acolhera como aprendiz na sua padaria.

A notícia faz ressaltar uma circunstância: até à chegada do jovem migrante guineense, Stéphane não era particularmente sensível à tragédia humanitária, ou qualquer tipo de militância social ou política. Stéphane é um homem que gosta de estar sozinho com a sua farinha e os seus pensamentos. Perdeu oito quilos em treze dias, mas nunca deixou de fazer pão, durante a greve de fome.

A correspondente do jornal El Pais na capital francesa ligou para a padaria de Stéphane, quando percebeu o modo como a sua luta mexeu com políticos de todo o espectro partidário. Ele aproveitou para falar dos milhares de jovens com percursos semelhantes ao do seu aprendiz agora ameaçado de expulsão.

Laye Traoré fez um longo caminho: Guiné Conacry, Mali, Líbia, travessia do Mediterrâneo até à Itália, de onde passou a França. Recebido como menor não acompanhado, beneficiou de ajudas estatais ao nível da habitação e da formação. Quando fez 18 anos, foi-lhe apontada a porta de saída, por não cumprir um dos requisitos burocráticos necessários à permanência. Foi isso que exasperou o padeiro de Besançon, muito agradado com o seu empenhamento e com o seu trato.

No início de Janeiro entrou em greve de fome e publicou uma petição pela regularização do seu aprendiz. Tinha como objectivo umas mil assinaturas, conseguiu mais de 240 mil. O olhar deste homem é próximo de nós como o do padeiro da nossa rua. Quase podemos sentir o cheiro do pão quente, olhando a cesta cheia de baguetes, cacete. O olhar do padeiro de Besançon faz-nos fome. De justiça.

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