Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Não é preciso colocar um trombone

Na quinta-feira passaram cem anos sobre o nascimento do poeta João Cabral de Melo Neto e a data foi assinalada, no Brasil, com o lançamento de duas importantíssimas edições, uma com toda a prosa do autor de "Morte e Vida Severina", outra com a poesia completa.

O volume com toda a prosa do pernambucano, prémio Camões em 1990, resulta do trabalho de uma década de Sérgio Martagão e inclui valioso material inédito, incluindo uma conferência sobre a poesia brasileira (escrita em 54, no Recife, mas nunca publicada) e vários textos, escritos para jornais e programas de rádio sobre outros escritores brasileiros. Quanto ao volume contendo toda a poesia de João Cabral de Melo Neto, sabe-se que deverá sair em Junho, com chancela da Alfaguara e vale a pena chamar para ele a atenção dos editores portugueses. O coordenador da nova poesia completa de João Cabral de Melo Neto é o poeta, crítico literário, bibliógrafo e respeitado académico António Carlos Secchin que garante uma edição renovada, com "40 alterações em versos indicadas por Cabral" num caderno que descobriu e que nunca tinham sido consideradas. Entrevistado pelo Correio Braziliense, António Carlos Secchin sublinha o facto, verdadeiramente relevante, de "pela primeira vez" os leitores de Cabral poderem "ter a obra como ele queria".

O jornal faz quatro perguntas ao académico que há quatro décadas estuda a obra de João Cabral de Melo Neto. Uma dessas perguntas vai no sentido de saber o que é que o centenário propicia que permita "ler, reler e repensar" o autor de A Educação pela Pedra. Secchin responde que a poesia de João Cabral "não é uma poesia paternalista, dona da verdade, que assuma o bem contra o mal, tentação da poesia engajada". "A realidade", lembra Secchin, "é tão escandalosa que o simples facto de ser retratada é uma denuncia. Não é preciso colocar um trombone".

Não posso estar mais de acordo. Mas, como lembrou João Cabral de Melo Neto, num dos seus mais conhecidos poemas, "um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros galos".

Não é preciso, pois, usar um trombone. Seja uma flauta, ou chamemos-lhe pífaro (citando um político habituado à metáfora). Sopremos com o que houver à mão, espalhando a notícia, tecendo a manhã.

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