Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Nas encruzilhadas de Régio

De manhã, em Castelo de Vide, Carolino Tapadejo lembrara as visitas frequentes que José Régio fazia à oficina de seu pai, na Rua Nova. Esse lugar mágico da arte do ferro é hoje a Oficina Museu Mestre Carolino. No século XVI, a Rua Nova chegou a ter 12 oficinas de ferreiro, muitos deles expulsos de Espanha e aqui convertidos pelas circunstâncias ao cristianismo.

No mesmo dia, à tarde, visitei a Casa-Museu que reúne os tantos objectos artísticos recolhidos por aquele a quem a investigadora Teresa Pinhal chamou "coleccionador poético". Na dissertação do mestrado em Museologia, Teresa Pinhal sustenta que o autor de "As encruzilhadas de Deus" se revelou, no processo contínuo e metódico com que reuniu as obras expostas na Casa-Museu em Portalegre, um coleccionador fetichista, "atormentado por uma obsessão que se liga directamente com uma outra: o crer, não crendo, em Deus".

A ideia de Deus era, em Régio, uma pulsão de Liberdade, confundindo-se com a Liberdade, ela mesma, como fica claro em muitos dos seus escritos. Isso o leva a definir-se, em plena ditadura, como "democrata, socialista e cristão".

É a essa luz que devemos olhar os seus Cristos, pelos quais correu meio Portugal, a tantos salvando do absoluto abandono, no prenúncio de morte da madeira carcomida. Régio ressuscitou Cristos do lixo e da incúria dos homens. Um dos Cristos a que deu o altar laico de sua casa é uma peça de madeira do século XV que encontrou na oficina de um sapateiro de Portalegre ao qual pretendia arrematar uma arca. Assim que a viu, Régio pretendeu comprá-la. Mas o sapateiro respondeu-lhe que a levasse, explicando que estava ali posta a um canto para ser queimada. Régio viria a confessar que muitas vezes se levantou da cama para ir contemplar esse Cristo.

O homem que se rende a estes Cristos é o mesmo que grita "Não vou por aí".

É o mesmo que nos dá a ver um Menino Jesus fazendo um quatro e outro trepando pelo hábito de Santo António, padroeiro de Portalegre. Reentrar na casa a cuja varanda, "diante de uma janela" o poeta colheu do vento suão um pedido de paz dum Deus que fere e consola, é outra maneira de nos dizermos que não vamos por aí.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de