Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

No Dia Mundial da Bicicleta

Steve Jobs fez tudo o que estava ao seu alcance para que o Macintosh se chamasse Bicycle. A sua proposta não vingou mas ele continuou a acreditar que "o computador é a bicicleta da mente". Aderi tarde ao computador e desisti cedo da bicicleta, tantas as mazelas das inumeráveis quedas nem sequer gloriosas. Mas dou longos passeios de bicicleta no computador. É capaz de ser tarde para regressar ao pedal, embora saiba que o Tolstoi tinha apenas mais um ano dos anos que tenho hoje quando decidiu aprender a andar de bicicleta. Foi isso em 1895 e há, do notável feito, registo fotográfico. Pedalai suavemente no computador: encontrareis o O'Neill com uns óculos em forma de bicicleta ou o Cortázar em pose de Alves Barbosa. Quando o Estado Novo quis esconder os mortos das grandes cheias de 67, o O'Neill fez um poema intitulado "A Bicicleta". Trocou Novembro por Janeiro para deixar a censura no pelotão. "O meu marido / saiu de casa no dia / 25 de Janeiro. Levava uma bicicleta / a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro, / vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,/ blusão cinzento, tipo militar, e calçava /botas de borracha e tinha chapéu cinzento / e levava na bicicleta um saco com uma manta / e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo / e uma panela de esmalte azul./ Como não tive mais notícias, espero o pior".

O Assis (o grande Fernando Assis Pacheco) foi casar de bicicleta. E, se deres ao pedal dos dedos nas teclas do computador, encontrarás uma foto dele, em pé, encostado à pasteleira, fazendo um descomunal manguito ao maralhal. O Cortázar ocupa-se de bicicletas nas Histórias de Cronópios. Certa vez, perguntaram-lhe o que era um conto. Respondeu que não encontrara a definição satisfatória mas firmou-se bem no selim e sustentou que o importante, no conto, é a tensão. "É como andar de bicicleta", disse ele, "enquanto se mantém a velocidade, o equilíbrio é muito fácil, mas se se começa a perder velocidade podemos cair. Um conto que perde velocidade quando se aproxima do fim é um golpe para o autor e para o leitor". Lembro-me de quando, nas redacções, se discutia o ofício e a sua arte. Eu dizia, por vezes, aos mais novos que deveriam deixar-se inundar pelo som dos auscultadores até que o som da própria voz se confundisse com a respiração, até que a voz parecesse irromper da pele toda a tal ponto que o corpo todo ganhasse a mesma reverberação, a tal ponto que nós e a nossa voz constituíssemos uma peça única, fossemos uma unidade, tal como quando pedalamos harmoniosamente e sentimos que o nosso corpo e a bicicleta são um só.

Não deixes de pedalar, tenta apanhar a bicicleta do poeta que "dá à pata nos pedais para um verão interior". É a bicicleta de Herberto. Escuta: "Lá vai a bicicleta do poeta em direcção / ao símbolo, por um dia de verão / exemplar. De pulmões às costas e bico / no ar, o poeta pernalta dá à pata / nos pedais. Uma grande memória, os sinais / dos dias sobrenaturais e a história / secreta da bicicleta. O símbolo é simples. / Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais - / lá vai o poeta em direcção aos seus / sinais. Dá à pata / como os outros animais".

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