Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Nove minutos

Sentou-se numa das mesas mais perto da televisão e foi legendando com a voz troante o seu acanhado sentimento do mundo. As imagens mostravam cidades a arder, desde que Mineápolis acendeu o rastilho da revolta contra nove minutos de insuportável asfixia da nossa mais medular humanidade.

"Sem justiça não há paz", grita-se nas ruas, dois carros da polícia de Nova Iorque avançam sobre a multidão, o Presidente vai à janela da Casa Branca atiçar os cães com as palavras e escuta, por isso, a acusação da mayor de Washington de que o seu gesto mais não representa do que a "glorificação da violência". Nem todas as memórias são curtas e sabe-se que, em momentos cruciais da luta pelos direitos cívicos nos Estados Unidos, a polícia soltou os cães contra os protestos.

O homem sentado na mesa mais perto da televisão segue apenas a sequência dos tumultos, prescinde do fio da memória. O seu discernimento é um indefinido relâmpago de vidros partidos e labaredas altas, o estrépito incendiário entorpece-lhe a lucidez, não há nele uma réstia de disponibilidade para meditar nas palavras a um tempo furiosas e sensatas de um rapper de Atlanta, filho de um polícia de Atlanta, que quereria não estar ali mas invoca a responsabilidade de ali estar, ali entre os seus, os que seguram na mão a tocha vingativa. Há várias frases de Killer Mike, o rapper de Atlanta, que deveriam ser conversadas nas escolas, são frases que se erguem sobre o clamor do momento televisivo, são frases de nove minutos de asfixia, frases que respiram com um joelho sobre o pescoço mas sacodem o jugo. Esta frase: "É meu dever dizer que tens o dever de não queimar a nossa própria casa por causa da raiva contra um inimigo".

Killer Mike lambe as palavras com as lágrimas e as palavras dele dizem que um polícia matou um homem como um animal, colocando propositadamente o joelho no pescoço de um ser humano durante nove minutos, enquanto ele morria como uma zebra na mandíbula de um leão. As palavras dele dariam uma legenda que talvez não caiba no discernimento do tipo de voz troante, sentado tão perto da televisão. As palavras pensadas, pesadas, do rapper de Atlanta: "Nós assistimos a essa pornografia do assassinato vezes sem conta. Não queremos ver prédios queimados, queremos ver o sistema que apoia o racismo a queimar até ao chão". O rapper filho de um polícia de Atlanta sugere aos que acenderam nas ruas um clarão de fúria que fiquem em casa. "Em vez de incendiarem tudo, na cidade onde existem mais de cinquenta restaurantes de mulheres negras, terão tempo para planear, organizar, mobilizar de forma eficaz o movimento capaz de derrotar" aquele que ameaça soltar os cães contra os manifestantes.

O tipo da voz troante segue as imagens de cidades a arder e interpela o homem atrás do balcão: "Então agora é porrada em Espanha?".

"Não é em Espanha, é na América", responde o empregado do café.

O tipo levanta-se, aproxima-se ainda mais do televisor, tacteia a tituleira do ecrã: "Ah... é violência. Estava a ler Valência".

Esclarecido o equívoco, a manhã continua a arder em lume brando, cai a capitular para a condição minúscula, o tipo vai à vida, tem mais que fazer do que conjecturar sobre a sua própria valência de espectador. O mundo arde em cidades distantes. As suas valências, enquanto espectador, a sua competência cidadã, o seu sentido crítico, o modo como permite que o noticiário do mundo ponha o joelho no seu pescoço, a frequência com que se perde nas legendas, nada disso lhe tira o sono, mesmo quando sente uma estranha falta de ar.

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