Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O ano em que o calendário avariou

Faz de conta que estou a conversar com um poema do Manuel António Pina intitulado "O ano em que o calendário avariou". Nesse faz de conta deixo entre aspas os versos do Pina cruzados com a leitura a meia voz de títulos de jornal ou com a reprodução de um discurso tagarela mais ou menos enviesado, apanhado entre o zumbido das moscas no espaço público. Nas conversas de surdos dos cafés há muito disto. Um dos parceiros do casal vai lendo, sem qualquer enquadramento ou anotação crítica, os avulsos títulos da manhã que o parceiro acolhe encolhendo os ombros ou soltando ais do reumatismo.

Fulano pede brevidade nas previsões, actualização nas projecções, era para ontem, seja amanhã ou mais cedo ainda, o que lá vem, o que lá pode vir, vou ali já venho e a gente fala. Tragam-me um calendário com o cenário, como já pedi ontem, ou antes de ontem, ou quando terá sido?

- "Foi numa noite de Natal./ Estávamos em maio mas não fazia mal, tinha havido uma avaria no calendário e naquele ano saiu tudo ao/ contrário: o Natal em maio, a primavera em novembro, o 1º de Abril a 22 de setembro."

Sicrano manda saber que apresenta o documento no dia 10 e que lá dentro vai o pedido cenário, como é costume, ano após ano

(Desculpe se salto dois versos no poema) - "Foi um ano tão maluco,/ tão completamente bissexto,/ que para muitos serviu de pretexto/ para trocar as voltas ao calendário/ e festejar todos os dias o aniversário"

E Sicrano: Todos temos preocupações sobre o próximo ano, sobre o dia de amanhã e todos os outros anos

Dá-lhe com o Pina.

-"Naquele ano espantoso/ cada um podia ter à vontade/ as suas manias/porque todos os dias/ eram todos os dias".

E lá vem Beltrano mandando calar um cavalheiro quase fora do baralho e, para o que interessa, acertando as horas e o passo a Fulano, na medida em que "todos os dias estão a surgir actualizações".

Pina-lhe sem dó nem piedade, que só há mais um verso para fechar

-"Eu que não sou menos que os demais, naquele ano tive vinte natais"

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