Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O boato verosímil

Há precisamente cem anos, a 19 de Maio de 1922, o Diário de Lisboa, deu nota de um boato que, por esses dias, corria "em letra redonda": o rei Afonso XIII de Espanha deveria encontrar-se com o presidente português António José de Almeida. O jornal sublinhava a verosimilhança da notícia, embora acautelando que o boato não partira da Luz Soriano. Teria Belém deixado escapar uma frase sibilina, uma nota ambígua? O jornal optou por entrevistar D. Alejandro Padilla, ministro de Espanha em Lisboa. A peça jornalística foi enquadrada com o lembrete de que, alguns anos antes da República, Afonso XIII se encontrara na coutada de Vila Viçosa com D. Manuel e que os dois jovens monarcas "passearam, falaram, talvez de amores, talvez de rapaziadas". A frase parece descambar para o efeito lamecha mas o redactor enche de brio o fim do parágrafo: "Do que eles falaram - e isso soube-se depois - foi de política".

Ora, nesse 19 de Maio, que disse o ministro de Espanha em Lisboa sobre o boato "verosímil"? Disse que nunca do assunto ouvira falar. "Mas, Vossa Excelência...", tentou o repórter. "Nada.", respondeu, oficial, o cavalheiro. "É, de resto, um caso melindroso". Calcula-se que o invocado melindre decorra da circunstância que, cem anos depois, leva um alto dirigente do partido de governo em Portugal a invocar uma regra que é dos livros: certas coisas nunca se dizem.

Recuemos, de novo, cem exactos anos. "Não acha V. Exa verosímil o encontro dos Chefes de Estado?", pergunta o redactor. E D. Alejandro Padilla: "Tudo é verosímil. Só lhe digo que não sei de nada". E depois, num aparte sinuoso: "Pode ser boato, vindo de Espanha".

Batendo a outra porta, encontra o repórter um ministro dos Negócios Estrangeiros que, sobre o caso, se desmancha em surpresa, referindo coisas que não passam de invenções. Mas "sobre o assunto não há nada". "Talvez em Espanha", alvitra o repórter. "Lá isso", aquiesce o dignitário. E o jornal de há cem anos carimba o rodapé: Portugal é, nesse 19 de maio, "com a Rússia e com os países da Europa Central, o único país que o rei Afonso XIII não visitou depois da guerra".

Cem anos depois, um alto dignitário, o mais alto dos altos dignitários, transforma em notícia o que não chegara a ser um boato, embora verosímil. Prende-se tal refinada revelação com a visita programada em segredo por outro dignitário a local muito mais instável do que a coutada de Vila Viçosa. O alto dignitário fazedor de notícias quebra, desse modo, regras tácitas de sigilo invocando "coincidências felizes". Coincidentemente, o outro alto dignitário, não se revelando particularmente feliz com a ocorrência, encolheu os ombros: "Anunciou, está anunciado". E os jornalistas, pressurosos: "E quando será?" "Será no dia em que lá chegar", respondeu, acautelando um resto de reserva. Não se sabe se o mais alto dignitário conseguirá em tempo útil, um furo jornalístico, revelando o dia e a hora de um evento planeado com a reserva que não convive com o boato, mesmo verosímil.

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