Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O colar de arroz

Feitos de ouro e de prata, de pérolas, de conchas ou de penas, de fragmentos de obsidiana (como provam vestígios encontrados na antiga Mesopotâmia) ou de fina seda, adornando o colo das damas ou justos como gargantilhas, brilhando ao pescoço de reis ou como fantasia de pechisbeque em cachaço de pobre, os colares seduzem desde o ontem mais longínquo. O mais antigo colar de que há notícia foi encontrado numa caverna do sul de África: é formado por 41 conchas perfuradas há 75 mil anos. Ontem, um colar espantou os telespectadores que seguiam o programa "Encontro" na TV Globo. Inteiramente feito com bagos de arroz, o colar brilhou ao pescoço de Ana Maria Braga, uma das mais populares apresentadora da televisão brasileira que assim marcou posição a respeito do aumento do preço do arroz. O preço do arroz disparou no Brasil. O índice de preços apurado pela Associação Paulista de Supermercados confirma um aumento de mais de 25% no preço do arroz, desde janeiro. A coisa está feia porque a mistura de arroz com feijão não anda na boca do povo e nas canções do Chico apenas por desígnios do paladar regional. As prateleiras dos supermercados são indicadores preciosos para avaliar o equilíbrio, sempre precário, entre o gosto e o bolso. Não por acaso, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados veio sugerir aos consumidores que troquem o arroz pelo macarrão. É a nova maneira de aconselhar a ingestão de brioches.

Ana Maria Braga (que já em tempos usara um colar de tomates para criticar o aumento do preço dos ditos) provocou alto alarido nas redes sociais, ao chamar a atenção para as "jóias" com que entrou em cena, o colar e uns brincos de arroz. "Vou guardá-las num cofre", disse ela. Alguém anotou: "A julgar pelo preço do arroz ela está tecnicamente a usar um colar de pedras preciosas". O Instituto de Pesquisa Económica Aplicada confirma a subida da inflacção, sublinhando que (por causa do feijão e do arroz) o impacto é maior junto das famílias mais pobres. Ainda não existe censura que leve os poetas a pegarem na deixa de Ferreira Gullar . Lembras-te? "O preço do feijão não cabe no poema. / O preço do arroz não cabe no poema". Mas este colar de arroz exibido por Ana Maria Braga, no estrondo passageiro de um programa de televisão, é a metáfora precisa da corda ao pescoço.

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