Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O coreto

Tenho um fascínio antigo por coretos, verdadeiros altares de democratização da música trazidos pelos ventos da revolução liberal. A música ganhou as ruas nesses palanques com as suas cúpulas metálicas, pensados para pequenas bandas. Vem, aliás, a palavra da italiana coretto, significando um pequeno coro. Há coretos como atalaias no centro de grandes praças, mas quase sempre eles pedem o perfume e a sombra dos jardins. As crianças, quando lhes é permitido usufruir os jardins, fazem dos coretos os seus castelos no ar. Um dos Poemas Inéditos do Pessoa, editados em 1955 pela Ática, reclama essa conjugação feliz nos jardins: "Ah, quero as relvas e as crianças! Quero o coreto com a banda!/ Quero os brinquedos e as danças -/ A corda com que a alma anda."

Já me demorei, à sombra mais próxima dos coretos e das histórias que os povoam, no Jardim da Estrela ou na praça José Fontana, em Lisboa, no alto do Bom Jesus onde um dos três coretos fica por cima de uma gruta, adornado como um caramanchão e outro tem o dedo de Raul Lino, que optou por o ataviar com colunas de granito, indo a estrutura metálica servir de adorno ao coreto de São Bento da Porta Aberta.

Já me sentei a tomar notas num banco junto ao coreto do jardim de São Lázaro, que foi desenhado pelo primeiro jardineiro municipal do Porto e construído na Fundição de Massarelos em pleno cerco do Porto. Sei o desenho dos coretos alentejanos, de Alegrete, de Castelo de Vide, de Alcáçovas, sei de uma aldeia chamada Outeiro Seco, no concelho de Chaves, onde há dois coretos para o despique das duas bandas rivais.

Mas o coreto que hoje homenageio é aquele à volta do qual gira o novo disco de Rogério Charraz, um cantautor da minha muita estima. O Coreto, o disco lançado hoje, apresenta-se como um romance, uma história de amor, não apenas o amor entre Sebastião e Ana, mas o amor pelos lugares e pelas figuras que desfilam ao longo das canções tecidas a partir das letras de José Fialho Gouveia. Este disco, produzido por Luísa Sobral, é uma viagem apaixonante de Rogério Charraz, um homem que gosta de coretos, pelos labirintos de uma comunidade em que todos se tratam pelo nome. O disco ficou estruturado num encontro de vários dias em Alpalhão, onde também há um coreto, sem outra sombra por perto que não seja a sua própria quando o sol está a pique. É esse sol vertical de Agosto, quando os campos do Alentejo são uma mágoa de sede, que anima uma das canções deste novo disco de Rogério Charraz. Nessa canção, Sebastião recua ao Verão da meninice e recorda um encontro com Ana junto ao coreto

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