Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O desporto e a mudança social

A foto publicada na edição digital do jornal El Pais mostra Carles Puyol, o antigo capitão do Barcelona e da selecção de Espanha, abraçando Muhammad Yunus, prémio Nobel da Paz em 2006. Ambos coincidiram na cerimónia realizada no último sábado, na capital catalã, celebrando a final de um torneio internacional de futebol que envolveu crianças de 10 a 12 anos, em representação de 56 equipas de 27 países.

O torneio foi organizado por uma empresa multinacional de iogurtes cujo responsável quis separar as águas: "Não somos uma ONG", disse ele. "Como empresa, temos de gerar resultados. Mas sabemos que uma empresa sem valores não tem futuro." O responsável da empresa que nasceu há 100 anos em Barcelona disse ainda acreditar que "só pode haver crescimento económico indo a par do crescimento social". "O mundo não nos é alheio", acrescentou, vincando a determinação em continuar fomentando os valores da solidariedade, do respeito e do cuidado com o meio ambiente".

E afinal o que fez coincidir naquele palco de Barcelona uma grande figura do futebol e o chamado "banqueiro dos pobres"? Uma ideia simples mas poderosa, aliás sublinhada pelo criador do micro-crédito: a de que "o desporto tem um poder único para fomentar valores". Muhammad Yunus lembrou que a emoção criada pelos grandes acontecimentos desportivos tem um potencial incontestável para transformar a sociedade.

"O desporto", disse ele, "é espectáculo, é negócio, e tem de ser cada vez mais um instrumento da mudança social". Yunus recordou que as últimas Olimpíadas geraram 7.000 milhões de euros. E logo se interrogou sobre que parte dessa quantidade de dinheiro voltou para a sociedade. Não se ficou pela pergunta, sugeriu algo tão simples como a transformação das aldeias olímpicas dos atletas durante os jogos em habitação social.

E Puyol, que disse ele? Disse coisas simples, tão belas como o tiqui-taca. Que o futebol tem um poder incrível para desafiar os jovens a alimentar a ideia de um mundo mais saudável, mais justo e mais sustentado. E que estava ali para devolver algo que a sociedade lhe tinha dado.

Estava ali para passar a bola, jogável.

E dei comigo a pensar que estes magníficos toques de bola não têm eco nos noticiários desportivos. O noticiário desportivo, tão prisioneiro da remastigação de resultados, da meia bola e força com que se tece a teia da mais pobre competitividade, resigna-se quase sempre ao aplauso e à vaia de circunstância, à proclamada intenção de jogadores e treinadores de darem "a volta por cima". Porque "é preciso levantar a cabeça", tantas vezes enterrada no relvado enlameado. Ou no sintético.

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