Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O Eros cansado e a culta rapariga

Há quarenta anos, Saramago entrou em Torres Novas "a sonhar com as frescuras do Almonda", mas duvidou "que fosse rio, aquilo". Virou costas às águas sujas e deu uma volta pelas igrejas. Enquanto fazia tempo para o almoço, visitou o museu de Carlos Reis que lhe fez lembrar o de Ovar. E o legendou deste modo: "Uma confusão simpática".

Quarenta anos depois, o repórter entra no novo museu de Carlos Reis, instalado em palacete setecentista e viu sinais de simpatia, muitos. De confusão, nada. O museu mudou de instalações e de linguagem, exibindo com orgulho e competência a sua colecção de pintura de Carlos Reis e preciosos exemplares arqueológicos trazidos da villa romana de Cardílio, ali tão perto.

Na magnífica colecção de arte sacra está a Senhora do Ó, já não junto a maquetas de lagares de azeite e vinho, mas em sua vitrina ao lado de uma outra, ainda mais doce, cuja mão esquerda parece saudar-nos e que terá escapado a Saramago. Na sala de arqueologia está um Eros menino. Terá sido este a impressionar Saramago? Confiro com a directora Margarida Moleiro, não há outro Eros neste museu. Mas Saramago descreve-o como um "Eros cansado", dormindo depois das batalhas amorosas. Ora a estatueta sobre a qual os meus olhos pousaram revela um menino nem sequer alado num movimento grácil e erecto. Margarida usa a palavra "pujante" a respeito do rapaz que, mesmo sem arco e flecha, parece pronto para todas as batalhas.

Saramago não dá indicações sobre o local onde comeu "o mais maravilhoso cabrito assado de toda a sua vida". Nada que o repórter não remedeie, tanto mais que não aprecia cabrito. Mas antes de almoço teve o repórter, com a ajuda preciosa dos seus anfitriões, um magnífico consolo para o cansaço que esta correria provoca em se aproximando a hora da refeição. Encontrou a "culta rapariga" que atendeu Saramago, há quarenta anos, no museu. Vai no gravador a voz dessa mulher a quem Saramago impressionou e com quem conversou longamente na confusão simpática de um museu que já não existe.

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