Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O fetiche da gaveta

O jornal Público conta esta manhã que o projecto para escoamento da ribeira de Massamá está na gaveta há 13 anos. A gaveta dos projectos protelados deve ter um leito de cheia muito fundo. Na parte incerta onde se posterga o que era para já, o que era para ontem, medra o fetiche da gaveta. Há quem suspeite que as arcas departamentais são gavetas de fundo falso, o que lá entra definha até ao mais sepulcral esquecimento.

Ainda ontem a Associação Zero pediu ao governo que tire da gaveta a legislação de protecção de solos que lá está, há sete anos, a ganhar bafio. Trata-se de legislação destinada a combater a contaminação dos solos, entretanto fechada ao mofo de sete chaves. Em março deste ano, a Zero recebeu da secretaria de Estado competente a garantia de que a publicação da dita legislação era uma prioridade da política ambiental do anterior governo.

Em agosto de 2019 o Conselho de Ministros aprovou projecto-piloto para a criação de redes de urgência de intervenção em casos de violência doméstica. Em finais de outubro deste ano, o coordenador da equipa de Análise Retrospectiva de Homicídios em Violência Doméstica disse à Lusa que a medida ainda não tinha sido (peço desculpa, mas estou a citar) "implementada". E da secretaria de Estado competente foi mandado saber que estão em desenvolvimento medidas para "operacionalizar a implementação" deste dossier que o governo considerara "prioritário".

Não há gaveteiro que não declare a intenção de "implementar". E afinal bastaria "pôr em prática", concretizar a decisão anunciada. Fazer.

No plano da acção política, "implementar" deve ser uma espécie de ponto morto, outro modo de dar um passo para o mesmo sítio. Um faz que anda.

Lembram-se do projecto ibérico de instalação de 150 mil cabras sapadoras na raia? Nunca saiu da gaveta, por falta de apoios. Há coisa de um mês, o director do AECT Duero-Douro lembrou ao Público que o projecto tinha tudo para criar riqueza e ajudar a travar fogos florestais. Ao menos na gaveta não dá raia. Nas gavetas dos decisores há mais ideias do que bíblias nas gavetas das velhas pensões de província. Antes a gaveta da velha de um dos poemas d'A Saca de Orelhas do O'Neill, "defendida a naftlalina, / dentro de uma caixa de cânfora". É lá que a velha guarda "palminhos de renda, uma gargantilha, véus, vidrilhos". A velha do O'Neill não implementa. Por isso, "tem sempre um quadradinho de marmelada para o bisneto pequeno"

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