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A imagem captada pelo repórter fotográfico Chaideer Mahyuddin, da agência France Presse, mostra-nos uma velha mãe afagando o filho, já adulto, doente mental, sentado na esteira. A mãe, Pietá de um filho vivo perdido nos próprios pensamentos, está acocorada no chão da enxovia. Luz e sombra entrelaçam-se no acanhado cubículo onde o filho está escondido do mundo, encoberto da própria desgraça, não de um qualquer nevoeiro ou fabulação. Não vemos o rosto do homem, mergulhado numa nuvem de fumo. A mãe ajuda o filho a fumar. Um dos pulsos do filho está agrilhoado, ele é um dos milhares de pessoas a que se refere o relatório ontem divulgado pela Human Rights Watch. Esta é ainda uma prática reiterada em 60 países, em todos os continentes.
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A investigadora Kriti Sharma, autora do relatório, conta que "as pessoas podem passar anos acorrentadas a uma árvore, trancadas numa gaiola ou num barracão para ovelhas, porque as famílias lutam para sobreviver e os governos não fornecem serviços de saúde mental adequados".
A cena captada pelo repórter fotográfico da France Presse passa-se na Indonésia mas poderia ter acontecido no Gana, em Moçambique, no México, no Iémen. Em muitos lugares do planeta, o acorrentamento dos doentes é ainda explicado pela crença de que os distúrbios mentais são resultado da acção de espíritos malignos ou do pecado.
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Sombra e névoa persistem e escondem o dever de resposta dos governos.
Nem todas as enxovias se abrem à bondade das Pietás de filhos vivos.
E há os pais de mãos acorrentadas. Ferreira Gullar foi pai de dois filhos esquizofrénicos. Paulo, o filho mais velho do poeta, teve de ser internado num hospício em Pernambuco. Gullar teve de erguer, aos poderes, a mão que afaga, protestando, perguntando como evitar que um filho possa acabar debaixo dos viadutos. "As famílias, principalmente as que não têm recursos, não têm mais onde pôr os seus filhos", escreveu ele. Por isso, lembrou, nesses longínquos anos oitenta, "eles viram mendigos loucos, mendigos delirantes". Gullar deixou pelo menos um poema sobre esse filho de olhar perdido. Foi outro modo de lhe afagar o rosto, de o ajudar a fumar. É o poema "Internação":
"Ele entrava em surto
E o pai o levava de
carro para
a clínica
ali no Humaitá numa
tarde atravessada
de brisas e falou
(depois de meses
trancado no
fundo escuro de
sua alma)
pai,
o vento no rosto
é sonho, sabia?"
