Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O homem que não grita

Biden deu-nos, na cerimónia de posse, uma lição suave sobre o poder da palavra. Ele não é um tribuno arrebatador, mas as palavras que utiliza são ponderadas e graves. São as palavras necessárias para nos lembrar que "a democracia é preciosa e frágil".

Eis um homem que não precisa de gritar para ser escutado.

Eis um homem que não precisa de gestos inflamados para travar a construção de muros da infâmia.

O mais certo é que desiluda, adiante, muitos democratas em todo o mundo. Mas não é provável que o New York Times tenha, no fim do seu mandato, uma qualquer lista de frases deselegantes e ofensivas como aquelas que constam da interminável lista de insultos proferidos por Trump no Twitter desde Junho de 2015 até ao dia em que lhe foi barrado o acesso. Basta verificarmos o modo como Biden se referiu à carta que Trump lhe deixou antes de partir para a sua mansão de luxo embalado por uma canção que Sinatra tornou famosa. Cada qual faz à sua maneira.

"Tenham uma óptima vida", disse o ominoso retirante. Mas a vida que se oferece aos seus concidadãos é aquela que a poeta Amanda Gorman considerou, ontem, na cerimónia do Capitólio, "uma colina íngreme de subir". Ela falou disso, da força da palavra que se liberta do seu próprio ruído. Essa palavra bebe num antiquíssimo clamor de liberdade que a jovem poeta premiada evocou referindo-se a uma época em que "uma negra magra, descendente de escravos, pode sonhar em tornar-se presidente para recitar a alguém". Ou, de outro modo, "para passar a palavra".

Amanda Gorman promete ensaiar esse regresso às escadas do Capitólio lá para 2036.

Por agora, veste-se de cores garridas para sacudir os dias de chumbo. E pergunta com as palavras certas: "Onde podemos encontrar luz nessa sombra que nunca acaba?".

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