Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O meu rio Mel é o Beijames

Saramago estava de mau humor, quando saiu de Viseu mas sentiu-se reconciliado com o mundo na estrada que leva a Castro Daire. Uma estrada "muito bela", anotou o viajante, entregue a uma orografia feliz, o rio Mel a seus pés, como um bicho de espuma, galgando as pedras do vale. "Este rio Mel é um formoso lugar do mundo", concluiu Saramago. Poucos parágrafos adiante, deixou-se maravilhar com a paisagem tão diferente de Montemuro. O leitor que gosta de serras e de nelas se perder, aprecia cumplicidades deste tipo: Saramago atravessou, feliz, uma das minhas serras de eleição. Mais perto me sinto do seu olhar errante na paisagem. O tempo mudou quando, há quarenta anos, o viajante cujos passos persigo foi a outra serra ou, como ele escreve, "à serra que é, por antonomásia, a Estrela". Apanhou nuvens baixas que os entendidos lhe asseguraram ser para o dia todo. Em dado momento escolheu a direcção de Manteigas. Assim fiz ontem, mas hei de ir a Gouveia, onde ele não foi. À minha espera estava um herói da Estrela, José Maria Serra Saraiva, o homem do parque de campismo rural do Vale do Beijames onde cuidou que vingassem 70 espécies de árvores, entre elas carvalhos, bétulas e faias. É o homem que dirigiu durante décadas a Associação dos Amigos da Serra da Estrela, o homem da campanha "Um milhão de carvalhos para a serra ". Conversamos cá fora, sob a chuva ainda miudinha e ele explica-me como distingue o ruído do vento do ruído do rio cuja água se pode beber. E como distingue o canto das aves, começando pelo pica pau que todos os dias o acorda. Guardo no gravador mais do que o fascínio deste homem, de apelido Serra, pela montanha onde, à noite, gosta de contemplar o corpo celeste. As razões porque diz "veredas" e não "trilhos". É que as palavras são importantes e devemos lutar contra certos abastardamentos ou modas que corroem a linguagem tal como as paisagens. A moda dos passadiços, por exemplo. José Maria Serra Saraiva ergue a voz contra essa nova doença gráfica por entre o verde e os abismos. Despeço-me dele pensando: "Serão os passadiços as novas rotundas, neste país de imitadores?". E regresso ao asfalto que me leva no sentido de Manteigas, pensando no proveito que seria para Duarte Cordeiro, o novo ministro do Ambiente, uma tarde de conversa com o velho activista ambiental de Verdelhos.

Torga desabafou, no Diário, em Agosto de 48: "Mal apanho uma aberta, sou como um galgo pelos montes acima". O poeta certamente perceberia o prejuízo da acção dos limpa-neves na defesa da água desta serra. Ela abastece uma enorme percentagem de casas portuguesas. Ouvindo o sábio cuidador da Estrela talvez ficássemos menos sensíveis à tão facilitada acessibilidade dos automobilistas ao topo da serra. Tenho aqui no gravador as razões por que devemos dizer-lhes que vão à pata como os galgos. E não penso apagar a gravação.

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