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A imagem registada pelo repórter fotográfico Hussein Faleh, da agência France Presse, mostra a operação de desinfecção de uma sala de cinema em Bassorá. Um homem protegido por um estranho fato de astronauta vai aspergindo a sala vazia em cuja escuridão tantos outros medos fizeram bater o maravilhado coração de tantos amantes do cinema. As roupas brancas do pandenauta amareleceram sob a luz coada de uns quantos holofotes acesos. Esta e a mesma luz coada que conduziu os cinéfilos de Bassorá aos respectivos lugares de uma nave em que viajaram até ao infinito do espanto, até onde, como na canção de Gabriel, o Pensador, "deuses e deusas se abraçam e beijam no céu".
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Tudo em redor é vermelho. As cadeiras, as paredes de onde pendem colunas de som silenciadas. Tudo é vermelho como a febre dos contaminados no ecrã que detecta os impuros. O que se passará lá fora, na cidade onde a multidão não encontrou ainda o método que permita sacudir a lei da gravidade? Lá fora, corre, há séculos, em sessão contínua, um outro guião. O plateau de Bassorá acolhe uma sequência infinita de dias de glória e de abandono, com quatro milhões de figurantes. Há dois anos, um repórter da Reuters descreveu as "águas mortíferas" desta cidade a que já chamaram "Veneza do Iraque". Bassorá, ou Basra, como grafam os ingleses que lhe ergueram, durante a Primeira Guerra Mundial, o maior porto do Iraque, já suportou tudo, bombardeamentos, falta de água, poluição. No plateau, quatro milhões de figurantes cumprem o papel que lhes é destinado num guião incerto e imprevisível. O pandenauta garante que a nave esteja pronta para transportar os eleitos da sessão da noite até onde, como na canção de Gabriel, o Pensador, "não exista gravidade". Iniciada a viagem, todos se livrarão "do peso / da responsabilidade / de viver nesse planeta doente".
