Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O pomar misterioso

Hoje à tarde, jogam os que dançam. Faço minhas as palavras sábias de Luís Castro e espero ver de novo a dança do pombo. E que Raphinha e Paquetá sejam algum dia nome de dança e que, de novo, esta tarde, Tite dance. Faz de conta que alguém pergunta onde é que eu gostaria de ver o jogo. E eu digo: numa certa rua de Sabará, diante da parede da casa que dá em directo a TV Muro e chupando jabuticaba.

Sabará, em Minas, é um nome que talvez escorra do tupi para dizer "grandes olhos brilhantes", um nome garimpado na saga do minério. Por alguma razão lá existe um museu do ouro. E talvez exista ou venha a existir um museu da jabuticaba. E existe a TV Muro, fundada por um tal Francisco dos Santos, conhecido pelo tão futebolístico nome de Chiquinho. A TV Muro emite durante o Mundial, em directo da parede da casa de Francisco para toda a rua. Francisco disse ao jornal El Pais que a sua é "a melhor televisão do mundo". Não duvido. Trata-se de um projecto que pegou de estaca, desde 1996. Pegou de estaca no muro, como se fosse um pé de jabuticabeira, a árvore que a cidade estima a tal ponto que o município faz um desconto no imposto predial por cada jabuticabeira plantada no quintal. Francisco é o grande animador desta televisão que transmite do muro de sua casa para a rua a festa do futebol dançável, entrevistando os vizinhos em seu concreto nome, com suas concretas coreografias de dança. Há um repórter que faz os directos muitas vezes sobrevoado por uma garrafa de plástico transformada em helicóptero, levando no bojo um telemóvel que regista do alto imagens do que se passa na rua. Eis como um muro se transforma em mural, em janela e não em obstáculo.

Eis o muro "com alma de gente", tal qual o de um certo poema de Manoel de Barros, mas ao contrário. Porque o muro da infância do poeta, mesmo se as flores trepavam por ele, erguia um interdito para o que escondia da curiosidade geral. Defendia um segredo. Certa vez, alguém trepou esse muro alto e vislumbrou "um enorme pomar misterioso".

Imagino que esse pomar tinha muitas jabuticabeiras, mesmo se era longe de Sabará. E logo me lembro do que contava o grande pedagogo Rubem Alves (que tive a honra de entrevistar há muitos anos na Escola da Ponte. Certo dia, ao tomar consciência de que teria menos anos para viver do que os já vividos, sentiu-se como aquela menina a quem deram um cesto de jabuticabas. Ela sentou-se, talvez encostada a um muro, e comeu só a parte mais sumarenta dos primeiros frutos, deitando for a o resto. Quando percebeu que já tinha poucas jabuticabas no cesto, passou a saborear o fruto todo, roendo até os caroços. Tomando esta imagem como mote, o pedagogo declarou que já não tinha tempo para lidar com mediocridades e por isso deixaria de participar em conferências nas quais se estabelecessem prazos rígidos "para reverter a miséria do mundo", nem aceitaria convites para encontros onde se discutissem "propostas para abalar o milénio". O tempo dele era demasiado curto para debater rótulos, ele queria doravante "a essência". Face às poucas jabuticabas que lhe restavam no cesto, não pretendia senão "viver ao lado de gente humana, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade".

Se houver por aí, por essas aldeias remotas, encontros mágicos como os que se organizam diante da parede da casa de Francisco, em Sabará, convidai-me.

Mesmo que no pomar misterioso não cresçam jabuticabeiras.

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