Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O precipício

Numa entrevista de há uma semana, Toby Ord, o filósofo australiano que dá aulas de ética normativa em Oxford, utiliza um modelo matemático para nos confrontar com os riscos de "um colapso da civilização". Cruzando todas as estimativas que o modelo propicia, ele avisa-nos de que "há uma possibilidade em seis" de que sejamos varridos da face do planeta durante este século. De que nos extingamos, como os dinossauros ou o tigre de Java.

Toby Ord, que acaba de publicar "O Precipício: o Risco Existencial e o Futuro da Humanidade", tem ocupado os seus dias avisando-nos dos perigos que nem sequer estão escondidos. Ele diz-nos que ou agimos rapidamente para garantir um modo de vida seguro ou, em breve, será tarde demais. Anotemos o fio de possibilidades que os modelos matemáticos revelam a este homem da ética normativa, comprometido, pelo labor intelectual e pela acção cívica, com a eliminação da pobreza global. Uma primeira conclusão: a catástrofe (dito de outro modo, o colapso da civilização) está já aí e a possibilidade de que ela decorra de causas naturais é francamente menor do que a possibilidade de que ela resulte da acção do homem. "O risco de que um asteróide acabe com a Humanidade", anota Toby Ord, " é de um em um milhão". Quando se trate da acção do homem, as probabilidades apertam: um em mil, num quadro de guerra nuclear ou de alterações climáticas; um em trinta, em caso de pandemia provocada de forma intencional; um em dez numa situação de descontrolo da inteligência artificial. O australiano de Oxford estabelece a média dos perigos cruzados: a probabilidade de extinção da espécie humana é agora de um para seis. Na entrevista ao jornal El Confidencial, ele levanta a tampa, para que não sufoquemos: é claro que "há cinco possibilidades em seis de que sobrevivamos como espécie". Afinal, a Europa sobreviveu à peste negra, na Idade Média, embora perdendo entre 25 a 50% da sua população.

O que me fez sublinhar a entrevista de Toby Ord foi a passagem em que ele considera a inteligência artificial descontrolada "a mais perigosa das pandemias". Há, nesse aviso, um remate de ironia. Ord anota que a Humanidade gasta, todos os anos, mais em gelados do que prevenindo que as novas tecnologias nos não destruam.

Não deveríamos deixar que esta imagem, no tremendo desafio que nos coloca, derreta à bica do Verão. Porque ela nos compele a repensar prioridades. Toby Ord não é um velho casmurro ou fatalista. O problema, aliás, como ele sublinhou numa outra entrevista, "não está no excesso de tecnologia mas no défice de sabedoria".

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