Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O presépio com grades

Chamo a sua atenção para a imagem reproduzida junto a esta crónica: ela mostra o presépio erguido por uma igreja metodista de Claremont. Neste presépio, o menino Jesus está separado dos pais. Cada qual, Jesus, Maria e José, dentro de uma jaula com grades.

A imagem, colocada nas redes sociais por uma representante da igreja metodista, estabelece uma estreita relação entre a saga da família de Jesus, na fuga de Nazaré para o Egipto, e a desesperança das tantas famílias de refugiados da América Central barradas e separadas na fronteira dos Estados Unidos. Separadas pelas grades que metaforizam a lei iníqua, as figuras do presépio reencontram o aconchego no interior do templo. A encenação toca na ferida, uma das mais perturbadoras do nosso tempo.

A igreja metodista de Claremont diz-nos, numa cenografia pungente, o que nos dissera há poucos dias a Unicef sobre as "profundas consequências para as crianças" dos recentes acordos entre os Estados Unidos, o México e outros Estados da região, visando estancar os fluxos migratórios. O Fundo das Nações Unidas para a Infância não duvida de que esses acordos colocam um elevado número de crianças "em grande risco". Os protocolos até agora estabelecidos provocaram o aumento do número de crianças migrantes retidas na fronteira do México, enquanto a burocracia cumpre os seus longos trâmites.

O Washington Post descrevia recentemente a situação no maior campo de refugiados do lado mexicano, na fronteira com os Estados Unidos. Foi nesse campo, de onde "os migrantes podem ver uma bandeira norte-americana tremulando do outro lado do rio Grande", que muitos pais viram os filhos adoecer, tantas as queimaduras provocadas pelo frio, tão poucas as condições sanitárias do acampamento. Estas famílias tinham entrado nos Estados Unidos e enviadas de regresso ao México. Ali as crianças dormiam ao ar livre, enfrentando temperaturas mínimas. A reportagem conta o caso de Marili e Josue, um casal hondurenho que fugira à violência dos gangues no seu país e esbarrara na burocracia dos designados Protocolos de Protecção a Migrantes. Certa noite, Marili cobriu os filhos com as roupas de inverno que tinham chegado ao campo e escreveu num pedaço de papel uma carta breve dirigida às autoridades de imigração norte-americanas. Na carta explicava que os filhos estavam doentes e não tinha outra maneira de os colocar em segurança. E disse às crianças que fossem e entregassem o papel rabiscado aos agentes do posto de fronteira, do outro lado da ponte. Nas semanas anteriores à reportagem, pelo menos 50 crianças fizeram a mesma travessia. Marili e Josué, estes nomes com sonoridades irmanadas a Maria e José, separados dos filhos numa linha de fronteira, reenviam-nos ao presépio da igreja metodista de Claremont. O presépio de grades, assim explicado por uma representante da igreja: " Numa época em que famílias de refugiados procuram asilo na fronteira e são separadas contra a sua própria vontade, lembramos a família de refugiados mais conhecida do mundo, Jesus, Maria e José".

A responsável da igreja metodista faz, entretanto, a pergunta necessária: "E se essa família procurasse refúgio, no nosso país, hoje"?

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