Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O rapaz da bicicleta de vento

Roubo o título desta crónica ao belíssimo livro "O rapaz da bicicleta de vento", de João Manuel Ribeiro. O livro, ilustrado por Marta Madureira, conta a história de um rapaz a quem aparecem todos os brinquedos com que sonha. Os brinquedos não custam dinheiro, são imateriais, o rapaz pode tocar-lhes com as suas mãos invisíveis. Mas o brinquedo pelo qual o rapaz mais se enfeitiça é uma bicicleta feita de nuvens e vento com a qual ele pode ir a todo o lado. É uma bicicleta parecida com a de Richarlison, o rapaz da camisola 9, a quem chamam O Pombo. Ontem, Richarlison, o rapaz da camisola 9, sonhou que pedalava golos no ar. Que saltava para o selim da sua bicicleta invisível e dava aos pedais a mais de um metro de altura, num plano paralelo ao chão. Que pedalava a sua bicicleta invisível na horizontal, num belo poço da morte, só de ar e dança. Richarlison sabe que o vento é o maior inimigo dos ciclistas. Esperou, por isso, um momento em que a emoção dos que o viam pedalando suspendesse o vento, e quando o ar ficou imóvel, ele pedalou e dessa pedalada criou um golo no ar. Pedalou um golo no ar. Um voleio, como dizem os que se habituaram à sua dança de pombo.

Um cartunista, Adão Hurrugarai, desenhou na Folha de São Paulo um conjunto de obras de arte: "A Noite Estrelada" de Van Gogh, "O Beijo" de Klimt, o "Nascimento de Vénus" de Botticelli - onde estão os deuses do vento soprando sobre a terra - e o pontapé de bicicleta de Richarlison.

Quando o rapaz da camisola 9 decidiu entrar na grande área do ar pedalando, como se sobrevoasse a Pedra do Elefante da sua Nova Venécia natal, revelou as maravilhas da bicicleta invisível: não consome combustível senão o do talento, não polui o estádio, permite ver o jogo e o mundo com outros olhos.

Os olhos de Richarlison, depois da pedalada entre linhas, depois de fazer do vento uma espécie de chão no ar, foram à janela do twitter, depois da dança do pombo. O rapaz da camisola 9 deixou escrita a alegria por ter concretizado um "sonho de criança". E escreveu mais: "Obrigado por tanto, futebol".

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