Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O rio infinito

O jornalista André Catueira conta na Lusa a bela e árdua história de Egesse, adolescente moçambicana nascida em Mizunga, na província de Tete. Aos 15 anos, ela quis estudar mais, para escapar a um casamento prematuro. Os pais deram-lhe apoio, contrariando o parecer dos anciãos. Mas, para continuar a estudar, ela precisa de atravessar o rio Luenha, afluente do grande Zambeze. Assim faz, todos os dias, percorrendo 14 quilómetros a pé e 50 metros com um rio pela cintura. Nas partes mais fundas do Luenha, ela socorre-se de uma pequena canoa escavada, talvez pelo pai, num tronco de árvore.

Escapou-me este "talvez pelo pai" porque, de repente, a notícia cruzou os seus parágrafos com os de "O Rio Infinito", um conto breve de Mia Couto sobre o dia em que "o sol deixou de se levantar e o mundo se cobriu de escuro e de frio" e Kianda, a mulher do escultor Kalunga, lembrou o marido de que era preciso contar histórias às crianças, alimentá-las de contos. E foi procurar histórias enquanto Kalunga foi procurar comida. Depois de muito andar, Kianda encontrou uma tartaruga que tinha um pé em terra seca e outro na água, como Egesse quando atravessa o rio Luenha para ir à escola. Kianda conseguiu que a tartaruga a levasse ao fundo do mar, onde os reis das águas profundas lhe pediram, em troca de histórias, algo que lhes mostrasse o mundo acima da água. Ela levou-lhes uma escultura feita por Kalunga num pequeno tronco de árvore que os filhos tinham trazido da floresta. Em troca, deram-lhe um búzio com o qual os filhos passaram a ouvir o mar, "o rio de todos os rios", como lhe chama Mia Couto, que poderia ser o autor desta notícia.

Egesse vai para a escola com um rio pela cintura, em busca de sageza. Ela é sage, aprende o mundo na escola em Mandie, na província de Manica, na outra margem do seu destino, no fim de uma caminhada árdua. Mas não é apenas sage, é sagaz, treina a audácia de caminhar com um rio à cintura, canoa de si mesma no rio infinito.

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