Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O trumpolineiro

Ao admitir, durante uma das suas alucinantes conferências de imprensa diárias, que a injecção de um detergente no corpo dos pacientes de covid-19 ou a sua exposição a "uma forte luz ultravioleta" poderiam ser uma solução no combate ao vírus, Trump lançou o pânico entre a comunidade médica e levou a que uma das grandes empresas de detergentes se visse na necessidade de avisar os consumidores de que, em nenhuma circunstância, os seus produtos de limpeza deveriam ser administrados no organismo humano, fosse por injecção, ingestão ou qualquer outro meio. E as autoridades de saúde do estado de Maryland viram-se obrigadas a lançar um apelo vibrante para que as pessoas não bebessem desinfectante. Foi outra maneira de dizer: "não levem à letra as palavras do trumpolineiro".

Ora o que assemelha os discursos de Trump à acção dos detergentes é a capacidade dissolvente. Mas, no caso de Trump, essa capacidade actua sobre o que era limpo, corrompendo-o, degradando-o.

A palavra de Trump é dissolvente não apenas porque, a todo o momento, perde o verniz mas porque nela irrompe, a cada vírgula, a cada trejeito, a marca corrosiva de uma desumanidade emulsificante.

O discurso de Trump tem uma grande capacidade de saponificação. Aquele gesto redondo com o polegar e o indicador parece simular o doseador de sabão líquido com abertura larga.

Quando contrai as comissuras dos lábios, os apaniguados talvez imaginem que faz bolinhas de saliva no ar, já aos adversários ocorre que activa a enceradeira depois de diluída a solução amoniacal.

Se ele disser "sabão", algo em nós procura o étimo sebum, de sebo. De seboso.

Alguns gestos dele insinuam a possibilidade de ter snifado sabão em pó. Talvez por isso, adora dar ensaboadelas aos jornalistas.

O mais certo é que o trumpolineiro nunca tenha ouvido falar no sabão de Alepo, que é feito com óleo de folhas de louro. Se produzisse sabão, bastar-lhe-ia a dose de enxofre e dispensaria, por certo, o cloreto de sódio que corre por dentro das lágrimas.

Em casos de maior ou menor delicadeza, face a contextos de uma extrema gravidade, o discurso dele almeja a eficácia da soda cáustica enquanto desentupidor de canos.

Mas a solução mais drástica da injecção de detergente deixa supor que as as veias dos seus concidadãos estão, para ele, no mesmo plano das loiças dos sanitários: ácido muriático para a veia, com força.

O cavalheiro mantém, como se percebe, um elevado índice de toxicidade

Se, na conferência de imprensa de há dias, ele sugerisse um aperitivo de sabão líquido, um batido de sabão, um sumo de sabão com uma pedra de gelo, seriamos levados a supor que ao rapazola crescido ocorrera, ao calhas, um método básico um pouco pateta de higienização. Mas é mais provável que ele nos tenha sugerido a lavagem do tubo digestivo como se nos mandasse dar banho ao cão.

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