Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Os amigos, os conhecidos e os pobres do mundo

O jornal que antigamente se chamava i e agora se chama Inevitável revela hoje a convicção expressa por um sindicato da PSP de que a prioridade da vacinação está a ser dada "aos amigos e conhecidos". Começamos a ficar vacinados contra a avulsa vista grossa à regra e essa imunização deveria deixar-nos inquietos.

Quando os dirigentes do G7 se reuniram, há dias, virtualmente, Durão Barroso escreveu no DN, na qualidade de presidente da Aliança das Vacinas criada pela Fundação Bill e Melinda Gates, um texto apelando à solidariedade vacinal. Nesse texto, referia a "existência de vacinas prontas para serem distribuídas pelos países mais pobres do mundo". Durão Barroso sublinhava a evidência de que "as vacinas estão a ter um impacto mais profundo sobre esta pandemia do que qualquer estímulo fiscal ou monetário", não só por permitirem salvar vidas e proteger pessoas, "mas também por abrirem um caminho para a recuperação económica". Por isso, insistia em que as pessoas de todos os países deveriam poder "aceder-lhes de forma rápida, justa e equitativa". Daí o título do artigo: "Solidariedade vacinal, já". Esta urgência de uma palavra de ordem não dispensa a reflexão sobre de que é que falamos quando falamos de solidariedade. Tantas vezes ouvimos declarações de solidariedade institucional e sabemos que essa é outra maneira de dizer paz podre. Manejamos muitas vezes a ideia de solidariedade do mesmo modo que proclamamos a de tolerância, acomodados a um padrão de bem-estar que amacia a má consciência. Afinal, deveríamos, simplesmente, reclamar justiça. É justo reconhecer que o presidente da Aliança das Vacinas a reclamou, neste texto em que pediu apoio global à acção da Covax.

Foi isso no mesmo dia em que António Guterres criticou a distribuição "extremamente desigual e injusta" das vacinas contra a actual pandemia. O secretário geral das Nações Unidas pôs o dedo numa das feridas maiores destes dias: mais de 75% das vacinas estão nas mãos de 10 países. Guterres foi claro: "Mais de três quartos das doses de vacinas foram administradas em apenas 10 países, enquanto mais de 130 nações ainda não receberam uma única dose".

Percebe-se que a Amnistia Internacional considere um eventual fracasso do proclamado acesso global às vacinas "uma falha moral abjecta".

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