Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Os ossos de Seferino

Indígenas peruanos de Accomarca, no departamento de Ayacucho, acolhem os seus mortos, o que resta deles, pó e ossos. Accomarca fica numa zona em que os guerrilheiros maoistas do Sendero Luminoso se movimentavam facilmente na década de 80. Eram, por isso, frequentes as acções de intimidação do exército peruano nesses dias em que as cadeiras dos palácios estavam tomadas por civis com estranhas apetências marciais. Naquele 14 de Agosto, em 1985, um destacamento militar comandado pelo sub-tenente Telmo Hurtado entrou em Accomarca e revistou todas as casas, uma por uma, intimidando a população, sob o pretexto de que ali se dava abrigo aos guerrilheiros. Nesse dia, 69 habitantes de Accomarca foram passados pelas armas. Entre eles, 20 crianças. O presidente era um tal Alan García, antecessor de Fujimori, outro coleccionador de massacres. García (que chegou a ser presidente honorário da Internacional Socialista) regressaria do exílio dos anos de Fujimori depois de uma guinada conservadora radical durante a qual criou a teoria do cão do jardineiro e extremou o discurso contra os povos indígenas e os ambientalistas. Quando percebeu que ia ser preso por envolvimento corrupto no caso Odebrecht, encostou uma pistola à cabeça. Foi aquando da sua primeira vez no palácio, a cadeira ainda nem sequer muito quente, que o sub-tenente Telmo Hurtado varreu a aldeia indígena de Accomarca.

Foi preciso esperar 37 anos para que os de Accomarca pudessem velar os seus mortos, cumpridos os trâmites da investigação do maior massacre da história recente do Peru. Finalmente, cumprida a exumação, os mortos de Accomarca vão ser sepultados.

Uma sequência de 12 fotos obtidas por Aldair Mejía, da agência EFE, mostram, no jornal El Pais, a comovente vigília dos de Accomarca, os ataúdes ainda vazios, as flores, as lágrimas, um sobrevivente do massacre de há 37 anos cavando a terra que possa ser digna sepultura. Uma das fotos coloca-nos diante dos ossos de Seferino, o puzzle de um corpo que se tinha perdido dos seus vivos, um esqueleto montado para a compostura de um esquife para a viagem derradeira. Os ossos já desconjuntados de Seferino, na sua composição fúnebre, datam as lágrimas de Marcia e Dolores que os velam, dizem, de outro modo, aqueles versos de Ferreira Gullar: "a parte mais durável de mim /são os ossos/ e a mais dura também". Eis o que tende a solver-se para deixar no pó da terra "o osso, o fóssil, futura peça de museu. O poema acaba com uma pergunta que nos desassossega: "O osso/ este osso,/ a parte de mim mais dura e a que mais dura,/ é a que menos sou eu?". Talvez os de Accomarca, os que ainda se lembram de Seferino, saibam responder a essa pergunta.

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