Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Os pequenos Calígulas

Estes dias de isolamento têm multiplicado gestos de uma comovente proximidade. As varandas dos nossos prédios são, como temos visto em tantas reportagens televisivas, o proscénio de uma nova criatividade partilhada, da promessa de um novo tipo de vizinhança, amável e não intrusiva.

Mas elas podem ser, têm sido, também, trincheira da mais feroz impiedade.

O medo pode fabricar pequenos Calígulas e isso talvez explique o acontecido em Leganés, perto de Madrid. Um homem que interrompera por breves minutos o seu disciplinado confinamento para, tomando todas as medidas de precaução, levar o filho autista e hiperactivo, de nove anos, até um pequeno recinto desportivo perto de casa, escutou, no breve percurso, lançados das varandas dos prédios, continuados insultos e o desejo expresso de que morresse.

O caso é contado no jornal digital El Diario numa reportagem sobre os "justiceiros de varanda em tempos de quarentena".

O jornal conta que, chamada por um dos pequenos Calígulas de varanda, uma patrulha policial interpelou o homem. Mas este tinha documentos assinados por um pediatra, validando a acção pela qual desatara nos vizinhos, desapiedados, as palavras iníquas. E a polícia não o importunou.

Quando este homem divulgou o caso no Twitter, muitos outros cidadãos espanhóis deram testemunho de experiências semelhantes. Houve quem lançasse ovos contra os que passavam na rua. E houve quem, como as duas médicas de um hospital de Valência que regressavam a casa, esgotadas depois de 24 horas consecutivas de trabalho, escutasse as palavras mais duras, vindas das varandas de onde, talvez, às oito da noite, tenham vibrado aplausos concertados aos profissionais de saúde.

Sophia escreveu um poema sobre as varandas. "É nas varandas que os poemas emergem", sussurra o primeiro verso. O poema evoca uma varanda onde Sophia amou a vida "como coisa sagrada".

Não levemos à varanda o pequeno Calígula. A rua já tem pegada maligna que baste.

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