Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Outras turbulências

Num outro 30 de novembro, há cem anos, foi a posse do 36º governo da I República, liderado por António Maria da Silva, um engenheiro de minas e figura de proa da Carbonária que tinha sido ministro do Fomento de Afonso Costa e agora sucedia a si mesmo. Este segundo de três governos consecutivos de António Maria da Silva durou uma semana. O Diário de Lisboa escrevia na primeira página: "Não há nada mais parecido com o governo que caiu que o governo que sobe agora ao poder. Entram de novo três ministros, mas isso não traz uma mudança, senão na aparência.". Comentando a permanência de António Maria da Silva à frente do governo, no qual continuava a acumular a pasta do Interior, o DL considerava que " a instabilidade ministerial é um mal. Pior que ela, só a esterilidade dos governos que muito duram". Este durou uma semana, o anterior não chegou a dez meses.

Nesse mesmo 30 de novembro de há cem anos, o DL noticia na primeira página que o deputado Carlos Pereira, do Partido Democrático, o mesmo de António Maria da Silva, se propunha apresentar um projecto de lei "em virtude do qual ninguém será ministro, com mais de cincoenta anos de idade". O Diário de Lisboa contava que, face a tal rumor, um velho político desabafou: "Com tal projecto, o sr Carlos Pereira há-de envelhecer antes de fazer cincoenta anos".

Passado o feriado, o deputado Carlos Pereira ripostou em carta publicada na primeira página do jornal, ao lado do editorial intitulado "O charco". Dizia a carta: "Para sossegar as fáceis irritações dos velhos políticos e dos políticos velhos, principalmente destes, pedia que no seu interessantíssimo jornal (...) dissesse que nunca pensei em tal". Mais garantia o deputado: "É de meu natural fazer da velhice, até da dos políticos, um motivo de veneração". O governo seguinte, também dirigido por António Maria da Silva, durou quase um ano, teve quatro ministros das Finanças, um deles Velhinho, mas só de apelido.

Passados cem anos, cem exactos anos, a demissão de dois secretários de Estado conduziu a uma remodelação que, aos olhos da oposição, configura "o caos" no governo. Mas prevê-se que a equipa agora retocada dure mais do que uma semana. Por outro lado, não foi necessário apresentar um qualquer projecto de lei para garantir a ausência de macróbios no governo. Só um dos novos secretários de Estado chegou aos cinquenta. E a esperança de vida, também a dos governos, apesar das turbulências, é muito maior que no tempo do engenheiro de minas António Maria da Silva.

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