Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Pão de mula, com lágrimas lá dentro

O repórter Idálio Revez foi ao Centro de Experimentação Agrária de Tavira e trouxe muito que contar. Devíamos pensar seriamente na espantosa realidade que ele nos desvenda esta manhã em duas páginas do jornal Público. O Centro reúne a maior colecção do país em árvores de fruto. Cerca de mil variedades, sublinha o repórter. Só de alfarrobeiras, mais de 40 espécies. 300 variedades de citrinos. "Um património em risco de desaparecer por falta de pessoal e interesses imobiliários", conta Idálio Revez. Este é o quadro de fundo, a triste realidade de uma instituição científica sob tutela da Direcção Geral de Agricultura do Algarve, possuidora de um importante património genético e ali abandonada à triste sina da morte lenta, reduzida a três funcionários, dois deles em baixa médica. O repórter conversa com o agrónomo João Costa que está de abalada, chegada a idade da reforma. Ele ajudou a criar a maior colecção de fruteiras mediterrânicas - romãzeiras, alfarrobeiras, amendoeiras e figueiras. Agora mostra na palma da mão os frutos que só deveriam chegar no Verão. O crescimento dos frutos secos fora de época é já um sinal inquietante da mudança do clima. Este Verão em Janeiro diz-nos, no ameaçado Centro de Experimentação em Tavira, o Inverno de um sonho. Se a ministra da Agricultura, depois de ler a reportagem de Idálio Revez, se meter no carro oficial para uma visita ao agrónomo de Tavira, recomendo-lhe que encomende para a viagem, num qualquer alfarrabista, um livro de poemas de Leonel Neves, um grande meteorologista algarvio, um dos pioneiros do Serviço Meteorológico Nacional. Leonel Neves correu mundo, fez fados para Amália e deixou uma obra poética importante. Em 1968 publicou na Guimarães Editores um livro intitulado "Natural do Algarve". Esse livro, mais tarde reeditado pela Universidade do Algarve, com prefácio de David Mourão Ferreira, inclui um poema, em louvor da alfarrobeira, que "concebe os frutos, íntima e discreta" e nos dá "pão de mula, com lágrimas lá dentro". Um outro poema desse livro é sobre a semente: "Um dia, o vento trouxe uma semente;/ a terra que no muro dormitava/ lembrou-se que era terra...e, de repente,/ brotou do muro uma figueira brava". Era isso num tempo de estações certas. O Plano Nacional de Leitura incluiu, aliás, um livro de "Historias e Canções em Quatro Estações" com textos de Matilde Rosa Araújo, Ilse Losa, Alexandre Honrado e Leonel Neves. O do poeta algarvio era um conto que contava como era a primavera. Quando o fruto da árvore "íntima e quieta" esperava o Verão para espalhar o seu perfume.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de