Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Passada a calhorda, um jardim

Pudesse, neste dia que lhes é dedicado, ir pelos amados jardins, rasurando, no caderno dos espantos, com novas anotações, os ecos da calhorda de ontem.

Aquela pergunta em forma de "insisto", provocando a resposta redundante: "insisto, também". Apetece dizer: a invenção do palimpsisto. Toda a tarde nisto.

Antes tivesse procurado o Jardim Botânico a matar saudades da árvore do imperador, parando alguns instantes junto ao busto que guarda a bala perdida de um tiroteio de há cem anos.

Por certo ganharia em ter ocupado as horas da calhorda diante do grande tulipeiro plantado no magnífico jardim dos Biscaínhos, em Braga, ainda reinava D. João V.

Corria, insano, o ensaio sobre as mil maneiras de fazer uma pergunta e sobre a maneira mais curta de responder, não respondendo.

Era de outra ordem o fel de José Duro, poeta que morreu jovem, chorando o seu jardim da Corredoura, em Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada.

Era de outra ordem.

Retiveste o momento em que, na fase mais melindrosa da calhorda, estando a morte de uma criança a ser usada como enferrujado mosquete, o visado Pizarro manteve com Galamba, entre risadas e largos gestos de mãos, bizarra pândega? Antes me tivesse refugiado no labirinto do parque do Arnado, em Ponte de Lima. O rio tão perto.

Na bancada cuja primeira fila sugere a parte de trás de um desastre, a voz suspensa num aparato impante de gestos circunloquiais, acusa a oposição de ter desistido do país e escora-se nos portugueses "lá em casa". Ainda gostaria de perceber os contornos desse vago lugar tão referido, também, por comentadores desportivos e outros artistas de variedades frequentadores do rossio televisivo. Esse indefinido "lá em casa" é uma espécie de "trânsito local" para nenhures. Tem mais mundo qualquer leão de pedra do Jardim do Paço, em Castelo Branco.

Entretanto, o homem que não respondeu porque não lhe perguntaram ia distribuindo a esmo acusações de populismo, alertando para um vírus que se espalha através da palavra. E isso valeu que lhe atribuíssem, ali mesmo, um sexto sentido. Possa tal atributo ser-lhe útil para melhor apreensão do alcance das sete esculturas que Rui Chafes espalhou pelo Jardim da Sereia, em Coimbra. Assim possa sentir o silêncio do mundo e a linguagem dos pássaros. Neste tempo de perguntas curtas, respostas curtas, substância curta.

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