Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
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Péssimo para a saúde

Há anos que procuro, nas colunas do jornal El Pais, de que ele foi fundador, ou no blogue miraquelotetengodicho que durante muito tempo foi mantendo, as reportagens, as entrevistas, as crónicas de Juan Cruz.

Foi nesse blogue que encontrei a definição de jornalista dada por Eugénio Scalfari, numa conversa com estudantes da escola de jornalismo do El Pais, animada por Juan Cruz: "O jornalista é uma pessoa que conta a outras pessoas o que acontece com outras pessoas". Aí está, despida de adorno e de pingarelho, a mais nobre definição de um ofício que um certo rapaz de Tenerife abraçou há quase 60 anos, tinha então treze, num jornal chamado Aire Libre.

Sempre que encontro uma prosa de Juan Cruz (tantas vezes citado nos Sinais) sinto uma euforia mansa, um sobressalto apaziguador. Foi o caso, por estes dias, ao tropeçar numa coluna que ele assina no jornal El Dia, publicado nas Canárias. O título dá um nó cego à minha vulnerabilidade de leitor, susceptível de contágio quando abdique do sentido crítico. Que diz o título? Diz-me, sem rodeios, que "o falso jornalismo é péssimo para a saúde".

Juan Cruz enuncia, num parágrafo breve, as regras basilares do ofício. Se as respeitarmos, a coisa vai, temos jornalismo. É nesse momento que o veterano Juan Cruz aborda aquilo que define como "uma nova natureza" colada à "definição ética do jornalismo": a opinião. E de novo se socorre da definição de Scalfari para separar as águas. Por alguma razão, como sublinha, na grande maioria dos jornais de todo o mundo é estabelecida uma separação inequívoca das duas disciplinas. Mas isso não impede que se tenha vindo a propagar, como um vírus, casos de jornalistas ou aparentados que se alcandoram a tribunas de opinião, dando sentenças sobre factos que não dominam. Juan Cruz alerta ainda para o facto de muitas dessas "excrescências do ofício" se espalharem por "variantes espúrias do jornalismo", as chamadas redes sociais. O que aí escorre são muitas vezes detritos que se confundem com o reflexo de um trabalho jornalístico. O perigo de contaminação é conhecido. Mas torna-se mais acentuado em momentos de batalha sanitária como este que vivemos.

O alerta de Juan Cruz não decorre apenas da sua ponderação ou das balizas éticas que reafirma. Ele escreveu este artigo depois de ter conversado com um grupo de médicos intensivistas que estão na primeira linha do combate à pandemia. Foi isso que eles lhe transmitiram, essa convicção fundamentada de que um dos elementos mais prejudiciais para a saúde é hoje "o jornalismo do falso", aquilo a que chamamos, inglês, fake news. Em que balcão do estado de emergência ou de calamidade para que isto remete serão fornecidas máscaras de segurança?

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