Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Postulados arriscados

Aquela frase do secretário de Estado adjunto e das Comunicações, ontem, no Público, em defesa do aeroporto do Montijo - "os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem" - não voa sozinha no texto. Pede, por isso, um pouco mais do que o desabafo do Caeiro ( "antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto") . No resto do parágrafo, há um rasto. O secretário de Estado admite que este é um "postulado arriscado e tão cientificamente sólido como o seu contrário, o de que eles não vão encontrar outras rotas migratórias, outras paragens estalajadeiras como no Mouchão". "Ciência sem dados comprovados", conclui Alberto Souto de Miranda, "não é Ciência"

Face a tal evidência, o postulado de Miranda torna-se ainda mais arriscado. Nem sequer (utilizando a fórmula perversa de um governante do tempo das vacas magras, antes de o governo de Costa as tornar voadoras) nos é dado perceber se Souto de Miranda preconiza que as aves de arribação abandonem a "zona de conforto" do estuário do Tejo e se façam ao mundo. Também não se percebe qual é, no entender do secretário de Estado, o postulado menos arriscado. O que se afigura implícito é o desejo subtil de que toda a avifauna migrante possa desenvolver os atributos do corvo que, não por acaso, ganhou mouchão nas armas de Lisboa. Há tempos, a revista Science revelou que os corvos conseguem planear tarefas e resolver problemas de maior complexidade. Fossem os céus do Montijo tracejados por corvos, gralhas ou pegas-rabudas (tidos como as aves mais inteligentes) e bastaria um plano que os atraísse a mouchão mais tranquilo. Mas face a uma população de maçaricos, garças, pilritos ou peneireiros, o postulado menos arriscado é, talvez, aquele que determine um estudo de impacto intelectual. Na verdade, até os pássaros do sul cantados por Mafalda Veiga, mesmo se trazem "melodias pra cantar às moças", perdem o norte num sketch em que Herman José se vê obrigado a abrir um guarda-chuva. E uma famosa canção dos GNR afiança, efectivamente, a existência de "pássaros estúpidos a esvoaçar". Num inesquecível episódio da série "O Último a Sair", Bruno Nogueira declamava, perante os atónitos Luciana Abreu e Roberto Leal, "ai um ganso daltónico, ai um ganso daltónico". E Janet Browne, uma biógrafa de Darwin, garante que o cientista e o comandante do Beagle passaram uma manhã assustando e matando atobás e viuvinhas, aves muito parecidas com o pelicano e a gaivota. Darwin teria dito que essas aves eram tão estúpidas que poderiam ter matado quantas quisessem. Os postulados científicos têm muito que se lhes diga e convém que saibamos distinguir o pato selvagem do pato bravo. Quanto ao voo das aves, nada de somenos quando haja nas proximidades um aeroporto, proponho que meditemos, nós todos, e também o secretário de Estado Alberto Souto de Miranda, no postulado do grande pedagogo Rubem Alves: "O voo pode ser visto mas não pode ser dito. O voo dos pássaros está além das palavras".

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