Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Procuremos o cume mais perto das nuvens

Neste dia que a Assembleia Geral das Nações Unidas dedicou à celebração da montanha, à sua conservação e desenvolvimento equilibrado, procuremos o cume mais perto das nuvens, esse lugar onde Matsuo Basho encontrou o "perfume das flores de ameixa".

Mais de 900 milhões de pessoas no mundo dependem da montanha para garantir o sustento. Mas esse santuário natural que fornece água pura a metade da humanidade está crescentemente ameaçado pelas mudanças climáticas e pela exploração desregrada.

Procuremos um lugar acima do nosso olhar chão, um lugar como aquele descrito pelo poeta caminhante, habitado pelo "sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis". O caminhante escolheu, não por acaso, para nome literário o da urze que enfrenta o vento nas fragas das montanhas, as raízes mergulhadas fundo na rocha, seu apelido de baptismo.

Folheando o Diário, podemos segui-lo pela Serra Amarela, "um dos ermos mais perfeitos de Portugal", onde "não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores". Esse é o lugar que ele define como "Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica".

Foi aventurando-se pela Serra Amarela que o Torga se meteu, certa vez, para Castro Laboreiro, "à procura de um Minho com menos videiras de enforcado". Encontrou, dois passos adiante, essa "terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas". E mais encontrou uma velha "desmemoriada como uma coruja das catacumbas (...) a fiar o tempo", à espera da neta. Esta chegaria, entretanto, "à frente dum carro de bois carregado de canhotas". Torga escreve, sobre a rapariga: "Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Notícias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos." Perguntou-lhe pela Peneda e o parágrafo que se segue dispensa o discurso directo: "A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram-se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa."

Se não puderes subir a esse "nunca mais acabar de espinhaços e abismos", procura um recanto de uma serra menina, a Montejunto dos neveiros reais, a Arrábida de Sebastião da Gama, a Sintra da Cruz Alta que o actor José Lopes não voltará a ver. O grande actor que nos comovera em "Adeus Lisboa", a curta-metragem de João Rodrigues, foi encontrado morto na tenda onde vivia, em frente à estação de comboios, em Sintra. Tinha 61 anos. Estava desempregado. Fora-lhe retirado o rendimento mínimo. O enterro é amanhã.

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